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“Traficrentes” no poder popular

“Traficrentes” no poder popular

Quanto ao fuzil, Bruno Paes Manso trata, no livro A fé e o fuzil: Crime e religião no Brasil do século XXI (São Paulo: Todavia, 2023), distingue as facções do crime organizado. Mostra como a situação no Rio de Janeiro começou a mudar em 2007, quando o Terceiro Comando Puro (TCP) — novo nome do Terceiro Comando, rebatizado por causa de rixas internas — assumiu o controle do varejo de drogas em territórios antes sob o domínio do Comando Vermelho (CV).

Muitas invasões envolveram confrontos violentos, mas o CV nunca mais conseguiu retomar seus antigos territórios. Passaram a ser dominados por um mesmo grupo armado.

Os chefes do Terceiro Comando, e depois do TCP desde sua fundação, evitavam o confronto com policiais, uma estratégia bem-sucedida, porque permitiu o grupo ser menos visado pelas forças de segurança. Ajudaria depois a ampliar a possibilidade de alianças com os milicianos, grupos formados sobretudo por policiais e agentes penitenciários. Eles seguiam em ascensão para se tornar o grupo criminoso mais poderoso do Rio de Janeiro.

Outra mudança foi, a partir dos anos 1990, símbolos ligados à umbanda, ao candomblé e ao catolicismo, vinham sendo substituídos por representações da fé pentecostal. O processo foi liderado por um traficante do TCP convertido à Assembleia de Deus dos Últimos Dias. Portanto, o avanço pentecostal ajudava a criar um ambiente de cordialidade na relação com os moradores.

Além disso, evitava-se a todo custo o enfrentamento com a polícia. Em muitos lugares, onde o pentecostalismo se misturava com o crime e a milícia, a violência passou a se voltar contra terreiros e seguidores de religiões de matrizes africanas.

Com frequência crime e religião precisam interagir. Manso lembra a espiritualidade aguçada de diversos bandidos famosos. De Lampião aos mafiosos italianos, muitos clamam pela proteção dos céus ou dos santos para suas vidas arriscadas, sempre a um passo da morte.

Ele narra o caso do bando iniciador de um pequeno império teocrático na zona norte do Rio, e da antiga Faixa de Gaza iria emergir o Complexo de Israel. Em 2016, o TCP decidiu avançar sobre o bairro vizinho de Cidade Alta, antes reduto do CV. Os integrantes da facção rival estavam cheios de dívidas, depois de seguidas apreensões de armas em operações policiais, e foram perdendo a credibilidade com seus fornecedores.

O líder do TCP era um leitor da Bíblia. Acreditava ter recebido uma mensagem de Deus e comparava sua trajetória à de personagens sagrados, nas guerras de conquistas territoriais do Antigo Testamento. Tudo decorria de seu canal direto com o Criador.

A Bíblia e obediência aos desejos superiores dava uma motivação extra, para além dos objetivos financeiros dos traficantes: sua governança tinha lastro nos textos sagrados. As cinco favelas sob comando do TCP passaram a ser chamadas de “Complexo de Israel”, fortalecendo o mito em torno de seu líder.

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Para marcar o batismo do novo conjunto de favelas, colocou uma enorme estrela de Davi, em neon azul, no topo de uma caixa-d’água, além de hastear a bandeira de Israel no ponto mais alto da comunidade. Era para esses símbolos serem vistos por quem passasse pela avenida Brasil, importante ligação entre bairros no Rio de Janeiro.

Os planos de expansão dos “traficrentes” seguiram para a Baixada Fluminense, em direção a comunidades de Duque de Caixas e Nova Iguaçu. Tomaram medidas voltadas para melhorar o cotidiano dos moradores e investiram em pavimentação e coleta de lixo, além de construírem uma ponte para ligar as comunidades, obra adiada pela Prefeitura.

O novo líder, por exemplo, se posicionou contra a comercialização de crack na favela. Dedicava-se à maconha de cultivo hidropônico, produto menos prejudicial à saúde dos consumidores, comercializada na entrada da favela abertamente.

A relação dos traficantes cariocas estabelecida com o sagrado era bem diferente das Metanoias dos ex-criminosos paulistas, acompanhadas por Bruno Paes Manso. Eles continuavam ganhando dinheiro com o crime. Ostentavam seus fuzis para impor autoridade, corrompiam policiais e usavam violência contra os inimigos, vivendo à margem das leis da cidade. Haviam criado seu próprio reino, um complexo unificado de cinco favelas com nome e bandeira próprios.

Os “malandros cariocas” resgataram o sagrado e se apropriaram de sua linguagem e símbolos. Afinal, eram cada vez mais populares entre os pobres e os defensores de uma nova ordem à base da violência, ou seja, contra a desordem associada ao CV.

A conversão e o uso da religião estavam ligados com um projeto de poder. Revelava a capacidade de a religião manipular as crenças e produzir poder se houver uma narrativa convincente para sustentá-lo.

A percepção de uma cidade formada por reinos isolados era confirmada pelos dados, apresentados por Bruno Paes Manso. Em 2019, traficantes e milicianos exerciam o controle armado de mais de 75% dos territórios da região metropolitana do Rio!

As milícias se fortalecem com o descontrole das polícias e se aproveitam da pregação do pentecostalismo punitivista tolerante à violência fardada. O risco é se propagar no país.

Autoridade, ordem, propósito, redes de apoio; de repente, uma nova forma de poder definia a direção do futuro do Brasil. Alerta Manso: “se levado ao extremo, o espírito guerreiro e competitivo pode descambar para a ilegalidade, deslegitimar o Estado de Direito em benefício de um populismo canhestro e fundamentalista”.

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