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Dialética do lugar e do espaço

Dialética do lugar e do espaço

Italo Calvino, em As cidades invisíveis, a partir de uma personagem real percorre os meandros do autoconhecimento. Aquilo que fomos ou não no passado é encontrado em cidades que estivemos in situ ou soubemos por estórias contadas ou, inclusive, deixaram de existir. O imperador mongol, que pede a Marco Polo para descrever por onde andou em seu reino, recupera as urbes conquistadas por intermédio da memória e da palavra do viajante veneziano. “Quem comanda a narração não é a voz: é o ouvido”. As poleis e as pessoas revivem nas narrativas que forjam a sua existência no mundo.

Nesse contexto fluído, “existem duas maneiras de não sofrer. A primeira é fácil para a maioria das pessoas: aceitar o inferno e tornar-se parte deste até o ponto de deixar de percebê-lo. A segunda é arriscada e exige atenção e aprendizado: tentar saber quem e o que, no meio do inferno, não é inferno, e preservá-lo”. A extrema direita adota a alternativa camaleônica com a promoção do lucro acima das necessidades da comunidade. Os progressistas resguardam os ideais de convivência, na dialética do lugar e do espaço que abrange o local, o regional e o global. As análises totalizantes do que atinge a cidade potencializam a eficácia prático-crítica das eventuais correções de rumo, além de permitir o planejamento das lidas de reconstrução abertas à participação e a inteligência social.

O lugar carrega um elemento de identidade para os trabalhadores, mais do que para os detentores do capital. A internacionalização da economia e o processo de desindustrialização revelam o óbvio, a burguesia não carece de um habitat para chamar de seu. O pertencimento tem conotação no afeto do trabalho. De repente, porém, o que era sólido desmancha na estiagem ou na enchente e, à demanda pela diversidade social e humana, a democracia soma uma demanda pela diversidade ecológica. Se a temperatura de Gaia prosseguir aumentando, o antropoceno será a despedida melancólica de vasta quantidade de biomas com seres da fauna e da flora; e ainda do iludido Homo demens, ex-sapiens.

O momento exige um exame amplo de caráter anticapitalista e antineoliberal, para elevar o nível de conscientização sobre o mentor da hecatombe ambiental. O menoscabo tradicional das “elites” com a natureza cobra, agora, o preço da insanidade com uma desterritorialização forçada. As cruzes nos cemitérios reportam os vulneráveis empurrados para a encosta de morros, a beira de lagos, rios e riachos; para não evocar os inúmeros empreendimentos de luxo em aterros, com vista panorâmica.

Negacionismo & mimetismo

Nos anos setenta e oitenta, uma rejeição ao industrialismo autonomizou o pensamento verde. Os noventa ecoam a reflexão do “jovem Marx” sobre o meio ambiente. Em um terceiro estágio, o materialismo histórico é entendido como a base teórica da crítica ecológica. Em 2001, na esfera política, o Manifesto Ecossocialista Internacional, de Michael Löwy e Joel Kovel, exprime o aceite do tema pelo “Marx maduro”. A propósito, lê-se no Livro 2 de O Capital: “O desenvolvimento da civilização e da indústria em geral mostrou-se sempre tão enérgico na destruição de florestas que tudo o que esse mesmo desenvolvimento tem feito para a conservação e a produção de árvores é absolutamente insignificante”. Karl Marx, pois, é um precursor do ambientalismo. A luta contra a mudança climática no lugar está entrelaçada com a luta a favor de prementes mudanças, no espaço.

Entre nós, a destruição foi ao paroxismo na ascensão do fascista à Presidência. No Rio Grande do Sul, sem escutar entidades ambientalistas e universidades, o governador Eduardo Leite altera 480 normas ambientais da legislação estadual e fragiliza a fiscalização para adequar-se aos ditames do bolsonarismo. Em entrevista à Folha de São Paulo, alega a premência de uma outra agenda à época do sinistro, a questão fiscal. Entre tomar as providências cabíveis e acatar os ajustes que impedem investimentos para garantia do futuro das gerações, jacta-se da opção que infernizou conterrâneos.

O prefeito de Porto Alegre Sebastião Melo ignora o cataclismo há seis meses no Vale do Taquari e negligencia a manutenção dos portões do Muro da Mauá, diques e casas de bombas. Após negar as falhas preventivas na evolução do desastre, o alcaide cai em contradição, e suspira: “Vou ter que trocar todos os portões de contenção”. A autocrítica é insuficiente para apreender o fenômeno climático. A Prefeitura não pôs na peça orçamentária do município nenhum centavo para “melhoria no sistema contra cheias”, conquanto o DMAE (Departamento Municipal de Águas e Esgotos) apontasse R$ 428,9 milhões em caixa; decerto o dote para a privatização. Para o geólogo Rualdo Menegat (UFRGS), “Uma cidade inundada a vida inteira não pode ser pega de surpresa em uma inundação. Mesmo que haja uma catástrofe, algumas coisas têm de funcionar, qual os hospitais”.

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O governador (PSDB) e o prefeito (MDB) atuam em jogral, quando contratam aquela consultoria financeira da Alvarez & Marsal para reerguer o lugar, de olho na monetização e gentrificação de territórios para atender a cobiça imobiliária e especulativa. O resultado é o flagelo: o negacionismo de conveniência para evitar o conflito de lealdade com o campo político privatista, associado ao mimetismo dos colonizados. Em ambas as circunstâncias, o espaço determina as regras como se a sociabilidade urbana fosse uma mera fração contábil, sujeita ao princípio das desregulamentações. O “crime de responsabilidade”, que não havia no impeachment da presidenta honesta, sobra nas incompetências do atraso que rezam pela cartilha do livre mercado às expensas do bem-estar geral.

A sociedade ecossocialista

Os cacoetes negacionista e mimético dos centros de poder transnacional se convertem na defesa dos predadores, as finanças e o agronegócio. O lugar é preso na teia dos interesses que o colonizam. A intelligentsia da sociedade com pesquisas e sugestões é retirada das decisões políticas. Não espanta. Países com calamidades na Europa, Ásia e África também preferem promessas de sustentabilidade, em vez de entregar o mandante dos crimes socioambientais: o capitalismo na fase neoliberal, feito um novo Titanic. A covardia intelectual e moral dos dirigentes submissos à empiria do imediatismo, sem estratégia, perpetua as torturas. Espalhar a notícia não é terrorismo, senão um realismo com o choque iminente no iceberg que inunda nossa esperança. Valha-nos o reformismo revolucionário.

A administração federal, cuja composição policlassista expressa a união de correntes sociopolíticas pela democracia e contra o fascismo, tem conseguido evitar o brete em que tenta metê-la o rentismo alavancado pelo Banco Central e o conservadorismo majoritário do Congresso. Embora a mídia corporativa pressione pela continuidade dos juros altos e para bloquear ações solidárias do Estado participativo, o governo Lula implementa políticas comprometidas com a nação. Sua presença forte na tragédia sulista sinaliza uma liderança engajada na passagem das demonstrações nacionalistas, de viés carnavalesco, para um nacionalismo com um conteúdo humanitário que enaltece a ciência e cura o sofrimento da gente humilde. Sem isso, o questionamento do paradigma sistêmico do modo de produção e consumo hegemônicos, sobre pilares da concorrência e acumulação extrativistas, vira um discurso doutrinário e maximalista que corrói a credibilidade político-ideológica da esquerda.

A luta cidadã não é travada numa arena ideal, mas sob o peso das décadas de monetarismo sobre a subjetivação e a cosmovisão do povo. No Brasil, no dia de descanso, o programa inviável numa TV civilizada “Domingão com Hulk” ocupa o imaginário periférico aos moldes neopentecostais, com soluções mágicas e individualistas. Com uma mão pega milhões dos pobres durante quatro semanas e, por sorteio, devolve com a outra mão hum milhão no início de cada mês, de forma demagógica e hipócrita. Enquanto a “Dança dos Famosos” estampa lições caricatas de meritocracia para justificar as desigualdades, consolar os derrotados e premiar os vencedores. Uma premeditada pedagogia da alienação e subordinação propaga os valores do status quo para alimentar a apatia dos subalternos.

Michael Löwy, no número dedicado à “Crise ecológica”, da revista Margem Esquerda (1° semestre 2024), destaca: “A sociedade ecossocialista não ocorrerá naturalmente, ela deve ser desenvolvida a partir das raízes profundas na realidade concreta e também das asas da utopia, condutora do desejo de outra sociedade. A construção envolve participação de seus militantes nas lutas por melhores condições de vida. As vitórias parciais são aqui fundamentais, mas é importante que estejam em sintonia com um projeto de outra sociedade, uma que seja socialmente justa, ambientalmente responsável e solidária”. Em resumo, somente assim – da dialética do lugar e do espaço – surgirá a síntese superior de liberdade e igualdade. Cabe à juventude e aos trabalhadores levarem a cabo a tarefa de romper com os grilhões da dominação. A organização da solidariedade ativa pelos partidos transformadores e movimentos populares é crucial para o que podemos denominar “grande recusa”.

Na imagem, área em risco ambiental degradada / Divulgação

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