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Adeus a Ignacy Sachs

Adeus a Ignacy Sachs

Faleceu na noite de 1 de agosto em Paris um grande intelectual – Ignacy Sachs, polonês naturalizado francês, um dos economistas mais respeitados do mundo.

Para quem não lembra, foi Sachs que concebeu, há meio século, o conceito de ecodesenvolvimento, origem da expressão “desenvolvimento sustentável” e de todos os derivados que hoje inundam jornais (e corações e mentes).

Nascido na Polônia, veio com os pais para o Brasil nos anos 1940. Na década seguinte, retornou a Varsóvia para trabalhar, ao lado de outros ícones da economia — Mikail Kalecki e Oskar Lange — na construção do socialismo real então vigente no leste europeu. Em 1968, quando uma vaga abjeta de antissemitismo varreu a Polônia, Sachs e sua família foram, como milhares de judeus poloneses, declarados inimigos do Estado e tiveram de fugir do país.

Sachs foi viver em Paris, sendo logo chamado para professor (e depois diretor) da prestigiadíssima École des Hautes Études en Sciences Sociales. Lá, durante anos, ele acolheu exilados brasileiros, professores de passagem por Paris, organizou dezenas de seminarios, palestras, criou o Centre de Recherches sur le Brésil Contemporain.

Quem quiser saber mais sobre esse intelectual de imensa lucidez, generoso, solidário, interdisciplinar — e gourmet, como eu sempre me surpreendia quando íamos almoçar nos bistrôs que ele conhecia ali pelos lados de Saint-Germain e da rue du Cherche-midi — , pode ler o livro de memórias dele, “A terceira margem do rio”, que eu traduzi par a Companhia das Letras em 2009 – e que está em catálogo.

Ignacy Sachs foi muito amigo de Celso. Nos respectivos exílios, trocaram lindas cartas, que publiquei ano passado na “Correspondência intelectual de Celso Furtado”. Quando o livro saiu, a Companhia das Letras mandou um exemplar para ele. E sua filha Céline fez essa foto. Não estive mais com ele. Mas fico aqui pensando o que ele pode ter sentido ao reler as cartas trocadas com Celso desde o início dos anos 1960, quando o primeiro dirigia a Sudene, no Brasil, e ele dirigia a famosa famosa Escola de Planificação da Polônia, em Varsóvia.

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Sachs era um exemplo de intelectual dedicado à compreensão do mundo, o dele, sim, mas também a Índia, onde morou muito tempo, e o Brasil.

P. S. – Ignacy Sachs é um dos missivistas cujas cartas reuni em Correspondência intelectual de Celso Furtado, publicado ano passado pela Companhia das Letras. Aqui, em foto de sua filha Céline Sachs, ele “se” lê.

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