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História do tempo presente

História do tempo presente

O dia 24 de fevereiro de 2022 ficará na História como a data em que a Europa, em pleno Século 21, perdeu a inocência. Depois de ter criado a União Europeia, uma construção de políticos idealistas que traria para sempre a paz no Velho Continente, viu eclodir uma guerra dentro do seu território. O maior país do mundo e talvez a maior potência nuclear começou uma invasão do país que tem um dos maiores territórios da Europa.

É uma data que será lembrada junto com outros acontecimentos que também não serão esquecidos: a queda do Muro de Berlim, o 11 de setembro e o genocídio que no momento se desenrola no Oriente Médio. São marcos da História recente, datas de referência para este século. Pelo menos até agora, se a geopolítica não vier a provocar mais um dramático acontecimento destinado à permanência na memória do mundo.

Até aquele dia do começo do conflito na Ucrânia era tomado como garantido o conceito de que nos tempos modernos as questões territoriais seriam resolvidas em negociações e tratados internacionais e não mais em conflitos militares sangrentos com armas criadas pela mais moderna tecnologia.

Mas não era bem assim.

A extrema-direita

A guerra abalou os conceitos geopolíticos que até então vigoravam, fortaleceu a OTAN e veio comprovar a dependência que a Europa tem dos Estados Unidos. Foi abalada a crença dos fundadores da UE de que a integração e maior interdependência entre os países garantiriam a paz no continente.

A Europa continua a assistir ao desempenho dos partidos de extrema-direita.  Apenas Irlanda, Malta e Luxemburgo não possuem partidos neofascistas representados em seus parlamentos. A extrema-direita tem crescido em força e está presente nos parlamentos de 26 dos 27 países que fazem parte da União Europeia.

 Em alguns casos, esses partidos chegaram ao poder, como aconteceu na Polónia, Hungria e Itália. As últimas eleições legislativas na Polônia foram realizadas em 15 de outubro de 2023. Os resultados foram uma vitória da oposição, que conquistou a maioria dos assentos no Sejm, a câmara baixa do parlamento polonês.

O partido que mais votos recebeu foi o PiS, de extrema-direita, com 35,38%. No entanto, esse valor ainda está aquém da maioria absoluta, que é de 230 assentos.

A Coalizão Cívica (KO), de centro-esquerda, ficou em segundo lugar, com 30,70% dos votos, seguida da Terceira Via (TT), de centro-direita, com 14,40%. A Nova Esquerda (NL) obteve 8,61% dos votos.

O governo da Itália, terceira economia da Europa e um dos seus mais importantes países, caiu nas mãos do Fratelli d’Italia, neofascista liderado pela atual Primeira-Ministra Giorgia Meloni e que tem Benito Mussolini como ícone inspirador. Seu slogan “Deus, Pátria, Família” é o mesmo utilizado pelo governo Jair Bolsonaro no Brasil e foi plataforma nos anos 1930 do antigo Partido Integralista, primeira tentativa fascista no país.

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O partido italiano que se encontra no governo rejeita a União Europeia, adota posições radicais contra os imigrantes, propõe a redução dos direitos da comunidade LGBTQ e do acesso ao aborto.

Com origem nos movimentos neonazistas, o partido que se chama “Democratas Suecos” é hoje a segunda força política na Suécia. Teve mais de 20 por cento dos votos com uma plataforma anti-imigração e adotando os tradicionais slogans da extrema-direita.

Na Hungria, o notório Viktor Orbán e seu partido Fidesz (União Cívica Húngara –Magyar Polgári Szövetség) exerce a sua política anti-imigratória, anti-LGBTQ e de proibição da educação sexual nas escolas. A União Europeia há pouco restringiu ajuda financeira à Hungria por descumprimento de suas normas e imposição de controles políticos ao sistema judicial e à mídia.

Também a Polônia, governada desde 2015 pela extrema-direita através do partido Lei e Justiça, pode sofrer sanções da União Europeia. A Hungria e a Polônia, disse a Anistia Internacional, regrediram rapidamente em termos de liberdade de imprensa, independência dos juízes e direito de protesto.

França

O Rassemblement National, partido neofascista comandado por Marine Le Pen, chegou no segundo lugar nas últimas eleições francesas, em 2017 e 2022. Diante do crescimento que tem experimentado, está seguro de que no próximo pleito vai conquistar o governo. Le Pen teve 34 por cento dos votos em 2017 e 41 por cento em 2022. O seu partido combate a imigração e a influência do Islã, é contra a União Europeia e defende o nacionalismo econômico, contrariamente a um dos principais pontos da plataforma da UE. Diz representar os interesses dos trabalhadores franceses, prejudicados pela globalização e o progresso da tecnologia.

Os partidos de extrema-direita espalham-se pelo continente e aproximam-se perigosamente do poder. Na Alemanha, o AfD-Alternativa para a Alemanha é hoje a terceira força eleitoral; na Espanha o partido Vox é também a terceira força e na Áustria o Partido da Liberdade Austríaca (FPÖ) garantiu o lugar de quarta maior força com quase 18 por cento dos votos.

*Imagem em destaque: Manifestação do movimento alemão Pegida em 2015 (Kalispera Dell/Wikipedia)

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