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Os eventos extremos vão se multiplicar – e é fundamental reinventar a política

Os eventos extremos vão se multiplicar – e é fundamental reinventar a política

Mariluce Moura*

Insistentemente, desde que vi as primeiras e inconcebíveis imagens do centro de Porto Alegre completamente inundado, e ainda cada vez que as revejo nestes dias pelos jornais televisivos, à minha memória voltam com força certas cenas do filme ‘A viagem’, do argentino Fernando Solanas (1936-2020).

Buenos Aires, na verdade cidade de chuvas bastante escassas, na ficção de 1992 do grande cineasta apresenta a nosso olhar seu centro histórico completamente alagado, transitável apenas por barcos, com ruas e avenidas de prédios monumentais tomados pela água suja, transportando restos de lixo e detritos de esgoto. Às tantas, a câmara embarcada nos mostra cartazes onde se lê, “submergindo, mas com muita esperança”; e adiante um político patético discursa de terno branco e pés de pato que se enfiam na lama. Seis anos depois, Solanas entregaria ao público ‘A nuvem’, espécie de desdobramento de ‘A viagem’, com uma Buenos Aires eternamente coberta por bruma e chuvas e onde a maioria das pessoas caminha para trás.

Certamente, é a multiplicidade de fatores e aspectos envolvidos na gigantesca tragédia que traga hoje o Rio Grande do Sul, com 107 mortos a essa altura, segundo a Defesa Civil, 134 desaparecidos, quase 400 feridos, cerca de 400 mil pessoas deslocadas de suas casas e 425 dos 497 municípios do estado atingidos pelo evento climático extremo, que me lança às associações com o cinema de Pino Solanas ao ver Porto Alegre submersa.

O recurso às metáforas visuais da ficção, na síntese que propõem, terá sido a forma que o cineasta, anteriormente criador de documentários poderosos como ‘A hora dos fornos’ (1973), encontrou para conseguir lidar com a multiplicidade de problemas e a desafiadora complexidade de sua Argentina, da América do Sul e Latina, a partir de ‘Sul’, de 1988. Artista inquieto e com seu compromisso político inarredável com a esquerda, Solanas, é verdade, voltaria sem problema aos documentários com Memória do Saque, de 2004.

Real, nada ficcional, a imagem de Porto Alegre tristemente submergindo — muito menos dramática, de fato, do que as cenas angustiantes de resgate de gente e animais refugiados em telhados cercados de água por todos os lados, salvos por botes ou içados por cordas lançadas desde helicópteros — também carrega sintética e simbolicamente, em minha percepção, as inúmeras e complexas dimensões do evento trágico que ora mobiliza o Brasil: climáticas, ambientais, sociais, políticas, administrativas, econômicas e culturais, entre outras.

Lembremos já, por dever de ofício, que nos anos 1990, quando Fernando Solanas observava ativamente os desafios da América Latina, não estavam postas em cena ainda duas questões que são componentes cruciais —e por vezes entrelaçadas — da atual tragédia no Rio Grande do Sul, ou seja, a mudança climática global e o fenômeno da desinformação deliberadamente produzida. Vale seguir por esse fio.

Desafios do clima e política

A polêmica científica sobre o aquecimento do planeta causado por atividades humanas e acionado, em larga medida, pelo uso dos combustíveis fósseis, catapultada ao centro dos debates mundiais desde a Rio-92, a Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento (CNUMAD), já estava praticamente esgotada no começo da segunda década deste século.

Não que governos do mundo todo, em especial dos países mais desenvolvidos, tenham levado a sério e cumprido com rigor as recomendações das chamadas Conferências do Clima para deter o aquecimento e mitigar seus pesados efeitos, entre eles, o aumento da frequência dos chamados eventos naturais extremos e suas consequências, como chuvas torrenciais, secas prolongadas, tornados, furacões etc. Mas, em termos estritamente científicos, desde 2012 mais ou menos, já não encontravam terreno para vicejar as antes abundantes hipóteses e teorias negacionistas dos céticos quanto às causas humanas da crise do clima.

Assim, não se estrutura sobre qualquer tipo de desconhecimento da questão climática a tragédia do Rio Grande do Sul, mas sobre políticas deliberadas de descaso na gestão do problema e de ataques concretos à legislação de proteção ambiental. Por exemplo, em 2019, “o governador Eduardo Leite alterou 480 pontos do Código Ambiental do estado”, uma lei de 2000, adotada após anos de intensos debates, observa a jornalista Giovana Girardi em sua coluna da quarta-feira, 8, na Agência Pública, citando reportagem original do ICL.

Ela acrescenta que não faltaram avisos nos últimos anos, inclusive os de um estudo encomendado ainda no governo Dilma Rousseff, o projeto “Brasil 2040”, lembrado na segunda-feira, 6, pelo site Intercept Brasil, “que já alertava para os riscos de enchentes no Rio Grande do Sul”. Esse trabalho abordava também as vulnerabilidades encadeadas pelo agronegócio e pelas hidrelétricas. “Acabou sendo engavetado em 2015 sem que nenhuma medida fosse tomada a respeito”, conta.

Em 2023, o Rio Grande do Sul já era o estado com mais decretos de situação de emergência e de calamidade pública relacionados à chuva no Brasil. “Um levantamento da Agência Pública contabilizou que, ao longo do ano passado, o governo federal reconheceu, em todo o país, decretos do tipo 1.073 vezes; 433 deles foram em municípios gaúchos, cerca de 40% do total. No período, pelo menos 71 pessoas morreram em decorrência dos temporais no estado”.

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Um inventário político da tragédia gaúcha, aliás, foi minuciosamente apresentado pelo jornalista Bob Fernandes, no programa Três pontos, da Rádio Metrópole, na quinta-feira, 9. E o que se vê é que, se o governador conseguiu flexibilizar leis ambientais com o apoio de deputados estaduais, o prefeito de Porto Alegre, Sebastião Melo, não investiu nada em prevenção e sistema antienchentes na capital, a despeito das cheias recorrentes no estado, sete das quais só no ano passado.

Enquanto isso, relata ainda Bob Fernandes, do total de R$1,6 bilhão em emendas dos deputados federais do Rio Grande do Sul emplacadas no orçamento deste ano, apenas R$ 2,5 milhões (isso mesmo!) destinam-se a enchentes, prevenção ambiental e assemelhados. E em paralelo, um projeto de lei (PL 36419) apresentado por três deputados do Sul (dois gaúchos), já em andamento na Comissão de Constituição e Justiça, liderada hoje pela extrema direita, propõe uma alteração absurda no código florestal do país, transformando em área rural ou terra agricultável largas extensões de biomas naturais protegidos. Assim, 32% da área dos pampas, por exemplo, 6,3 milhões de hectares, seriam liberados para o agronegócio.

Ciência, deslocamentos e reconstrução

Se os grandes desafios para enfrentar e mitigar as consequências dos eventos extremos resultantes da crise climática são políticos, inclusive no combate à manipulação criminosa da desinformação, isso não quer dizer que não existam questões científicas a serem levantadas e aprofundadas, entre outras.

Assim, grandes instituições estão no centro do debate e na produção de conhecimento científico sobre a crise climática, a começar pelos Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), Instituto Nacional de Meteorologia (INMET) e Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden). Mas a cena desse debate e da produção e divulgação de conhecimento sobre ambiente e clima está povoada também por centenas de pequenas iniciativas, inclusive algumas muito novas, impulsionadas pela catástrofe gaúcha.

Exemplo interessante nesse sentido é o da “Comunicação Universitária em Rede – Emergência Climática Rio Grande do Sul”. Trata-se de uma rede formada por universidades federais e ancorada no estúdio da Rádio UFSCar, da Universidade Federal de São Carlos, no interior de São Paulo, responsável pela produção e veiculação ao vivo de notícias e entrevistas com pesquisadores sobre o que está acontecendo no Rio Grande do Sul, que desde a terça-feira, 7 de maio, vai ao ar entre 17h e 17h30 (em 95,3 FM, localmente, e em radio.ufscar.br, fora do município).

Meteorologia, hidrolologia e áreas afins fornecem o conteúdo por excelência para a divulgação na rede e são principalmente pesquisadores das universidades federais do Rio Grande do Sul os seus protagonistas. O conteúdo sonoro é logo depois postado nos dispositivos e agregadores de conteúdo digitais e pode ser compartilhado no formato podcast com emissoras públicas de todo o país.

Ali se apresentam as razões próprias para que o Rio Grande do Sul seja tão afeto aos eventos climáticos extremos, as particularidades de seu sistema hídrico (por exemplo, o Guaíba é uma espécie de híbrido, rio que se comporta como lago, e por isso, após a cheia produzida por grandes precipitações de chuva, é tão mais lento em promover a baixa das águas), os debates sobre a reconstrução das cidades destruídas e o futuro das áreas habitacionais às margens dos rios etc.

“Entendemos o projeto para além de um programa de rádio. A produção é o que nos une e nos manterá mobilizados, mas a força da proposta está nessa dimensão de rede e na possibilidade de apoiar também a mobilização de cientistas e de toda a comunidade das nossas instituições federais de Educação Superior, que respondem por mais de 90% da pesquisa realizada no Brasil, estão em todo o território nacional e mostraram, na pandemia, como são essenciais no enfrentamento de crises como a que, infelizmente, estamos vivendo no nosso país neste momento”, diz Mariana Pezzo, diretora do Instituto da Cultura Científica (ICC-UFSCar) e uma das coordenadoras da iniciativa, em veículo da universidade. Para finalizar, o Ciência na Rua também acompanhará atento a evolução dessa tragédia ambiental.

Mariluce Moura é jornalista de ciência e pesquisadora. É diretora-presidente do Instituto Ciência na Rua (ciencianarua.net), organização não governamental constituída em 2021. Atua no campo do jornalismo científico desde 1988. É professora titular aposentada da Universidade Federal da Bahia.

Na imagem, alagamento da região central de Porto Alegre / Gustavo Mansur / Palácio Piratini

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