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China reduz importações de soja e levanta dúvidas para América do Sul

China reduz importações de soja e levanta dúvidas para América do Sul

Em 2022, a produção nacional chinesa de soja atingiu 20 milhões de toneladas no ano passado. Meta do governo é reduzir a dependência produzindo mais de 35 milhões de toneladas até 2032.

POR JUAN CHIUMMIENTO

A China é o principal importador de soja do mundo, mas as mudanças na dinâmica da agricultura e as tendências comerciais de longo prazo deixam em dúvida os países produtores da América do Sul, que há anos exportam para o país asiático de forma sustentada.

Após duas décadas de aumentos quase constantes, as importações de soja da China sofreram quedas e interrupções periódicas desde 2019, ligadas aos efeitos da pandemia de covid-19 e da peste suína africana na indústria suína chinesa, um dos principais destinos da soja como ração animal.

Ao mesmo tempo, alguns analistas acreditam que as importações de soja da China já podem ter atingido o pico.

Essa tendência está de acordo com os planos oficiais da China de aumentar a produção doméstica de soja e de reduzir a dependência de importações, como parte de um esforço mais amplo para a segurança alimentar nacional. Isso pode ser um sinal de alarme para países como Brasil e Argentina, que encontram na China seu principal comprador.

Em 2022, a demanda total de soja da China foi de pouco mais de 115 milhões de toneladas, mais de 80% coberta por importações, segundo dados oficiais chineses. A produção nacional chinesa de soja atingiu 20 milhões de toneladas no ano passado, e o governo estabeleceu uma meta de produção de mais de 35 milhões de toneladas em 2032 para reduzir essa dependência.

Diferentes relatórios empresariais alertam sobre as mudanças, mas os principais agentes do agronegócio na América do Sul afirmaram ao Diálogo Chino que o cenário não causa grandes preocupações, pelo menos no curto prazo. “Não parece provável que a China consiga aumentar consideravelmente sua própria produção devido à escassez de água em seu território, e à falta de nível técnico e maquinário adequado por parte dos produtores”, disse Rodolfo Rossi, chefe da Associação da Cadeia da Soja Argentina (AcSoja).

Na mesma linha, da Associação Nacional dos Exportadores de Cereais do Brasil expressaram que “a situação não é vista como preocupante”. Enquanto isso, os entrevistados levantaram outros desafios do mercado global de soja que virão nos próximos anos. Entre eles, as consequências da crescente produção brasileira e o forte aumento do esmagamento (processo de conversão da soja em subprodutos) nos Estados Unidos.

Desaceleração da demanda

No início do século, quando importou mais de 10 milhões de toneladas de soja, a China representava 25% das compras mundiais desse produto. Duas décadas depois, os números se multiplicaram várias vezes: nos últimos cinco anos, as importações chinesas oscilaram entre 88 milhões e 100 milhões de toneladas, segundo dados do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos, que representa cerca de 60% do comércio mundial.

“A China tem sido o grande mercado que tem impulsionado a demanda mundial por soja”, definiu Gustavo Idigoras, titular da Câmara da Indústria do Petróleo e Centro Exportador de Cereais da República Argentina (Ciara-CEC).

Nesse processo, Brasil e Argentina, dois dos principais produtores da oleaginosa, se beneficiaram enormemente, chegando a ponto de a China se tornar o principal destino de suas exportações de soja: mais de 90% dos embarques da Argentina e 70 % do Brasil.

No entanto, nos últimos anos, a situação sofreu mudanças significativas. No futuro, várias razões antecipam uma diminuição do ritmo das importações.

“As compras de soja da China diminuirão em 2030 como resultado do crescimento mais lento da produção pecuária, melhoria contínua nas práticas agrícolas e adoção generalizada de uma baixa taxa de inclusão de farelo de soja nas fórmulas de rações”, aponta um estudo recente do Rabobank. Segundo o relatório, isso terá “profundas repercussões em toda a cadeia de suprimentos global”.

Outro fator que influencia essa dinâmica são os planos oficiais [do governo chinês] de aumentar a produção nacional de soja, que em 2022 chegou a 20 milhões de toneladas. Seu 14º plano quinquenal  (2021-2025) tem como meta atingir 23 milhões de toneladas de soja até 2025, enquanto o relatório de perspectivas do Departamento de Agricultura estabelece uma meta de produção doméstica de soja de 36,75 milhões de toneladas até 2032.

Também é relevante considerar o que ocorre com as farinhas, já que o destino da soja é a sua moagem, principalmente para ração animal. “Nos últimos anos houve uma diversificação na China, onde o crescimento da demanda por colza, amendoim e farelo de girassol foi mais rápido do que a soja”, explica Bruno Ferrari, analista da Bolsa de Valores de Rosário (BCR).

Ferrari indicou que, embora seja verdade que  há uma desaceleração  no crescimento da demanda por farelos na China em geral, a da soja desacelerou muito mais, enquanto outras começam a crescer um pouco mais rápido ou mantêm o dinamismo. “Isso tira um pouco de espaço da soja”, acrescentou.

O que foi explicado pelo executivo da BCR encontra respaldo nos planos oficiais. Conforme  noticiado pela Reuters em abril, o Ministério da Agricultura chinês emitiu um plano de ação para reduzir o uso de farelo de soja na alimentação animal, propondo que sua proporção seja reduzida dos atuais 14,5% para menos de 13% até 2025.

Esse roteiro “orientaria a indústria de alimentos a reduzir a quantidade de farelo de soja, promovendo economia e reduzindo o consumo de grãos forrageiros e contribuiria para garantir o abastecimento estável e seguro de grãos e produtos agrícolas importantes”, diz o comunicado do Ministério.

Sem grandes impactos

Embora os entrevistados concordem que há uma desaceleração na demanda por soja da China, nenhum deles expressou que a situação vai gerar mudanças bruscas na dinâmica exportadora da Argentina e do Brasil.

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“Acho que não devemos esperar muitas implicações para os dois países com as mudanças na demanda chinesa por soja”, disse Gabriel Medina, professor da Faculdade de Agronomia das universidades de Brasília e Goiás.

homem andando entre duas fileiras de gaiolas com porcos

Um trabalhador de uma fazenda de porcos na província chinesa de Guangdong. Um dos principais usos da soja importada na China é a alimentação animal. Imagem: Amanda Ahn/Alamy

A visão do acadêmico é compartilhada por Sávio Pereira, diretor do Departamento de Análise Econômica e Políticas Públicas do Ministério da Agricultura do Brasil: “Não estamos preocupados” porque, entre outros fatores, “a ideia de mudar a forma de alimentação dos animais não pode acontecer a curto prazo”.

A Idigoras, referência para as principais indústrias exportadoras da Argentina, disse que, embora “existam análises que indicam que a China pode estar atingindo um platô em sua demanda incremental por soja”, elas devem ser vistas “com cautela”. Ele acrescentou que “a China é um importador estrutural de soja e continuará sendo”.

As respostas dadas para este artigo se justificam principalmente pelo fato de que os objetivos de produção da China “não movimentam o mercado importador” – segundo Bruno Ferrari, analista da BCR -, já que é um aumento marginal em relação ao volume total. “A diferença ainda é muito grande”, acrescentou Medina.

Para Rodolfo Rossi, que representa os players da cadeia da soja na Argentina, “não será fácil para a China atingir suas previsões devido à falta de melhorias nas eficiências locais”. O empresário completou dizendo que o país ainda tem déficits hídricos consideráveis ​​e que os produtores locais “não têm nível técnico nem maquinário adequado”.

Relatórios de países terceiros corroboram a visão dos entrevistados. Em um  artigo recente , o Australian Strategic Policy Institute observou que “as necessidades concorrentes de uso da terra, mesmo para outras culturas como trigo e milho, tornam difícil para a China escapar de sua dependência das importações de soja”.

Superávits da produção de soja na América do Sul

Agora, o que acontecerá com a crescente produção de soja no Brasil? Segundo as  últimas estimativas do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA), é esperado um aumento de 5,2% para a safra 2023/24, passando das atuais 156 milhões de toneladas para 163 milhões. “E ainda temos muitas novas áreas disponíveis para plantio”, acrescentou Pereira, funcionário do governo brasileiro.

soja sendo processada em um campo

Colheita de soja em Luís Eduardo Magalhães, Bahia, Brasil. Especialistas dizem que qualquer excedente de soja gerado pela desaceleração do comércio do Brasil com a China irá para a indústria local. (Imagem: Alamy)

Para Ferrari, o excedente gerado pelos produtores brasileiros irá para a indústria local: “O país tem como continuar gerando cadeias produtivas virtuosas internamente para introduzir essa mercadoria e possivelmente é o caminho que seguirão no futuro”, estimou.

Algo semelhante ocorre no caso da Argentina. Gustavo Idigoras explicou que “existe uma estratégia diferente do Brasil, não focada em vender diretamente para a China, mas em vender produtos processados ​​para o resto dos países”.

De fato, o país  exporta grandes quantidades  de farinha e óleo para países como Índia ou Vietnã. Assim, segundo o empresário, os potenciais aumentos de produção irão para a indústria local, que vem  trabalhando bem abaixo  de suas possibilidades.

Vale dizer que a Argentina, ao contrário do país vizinho, não prevê grandes aumentos de sua produção local, pelo menos no curto prazo. Desde o pico histórico da campanha 2014/15, quando foram ultrapassados ​​60 milhões de toneladas, os números tendem a cair. O atual ciclo agrícola marcou o pior recorde do século, com apenas 20 milhões de toneladas.

Além dessa diferença, os dois países possuem divergências quanto ao destino de sua produção. Embora ambos tenham um perfil exportador acentuado, o Brasil exporta  a maior parte  de sua produção na forma de grãos, enquanto a Argentina o faz com valor agregado (farelos e óleos).

O fato de grande parte de sua produção ser destinada à exportação direta não significa que o Brasil não seja um player central no mercado de produtos industrializados. De fato, neste ano, tudo indica que se consolidará como o principal produtor de farelo de soja, desbancando a Argentina pela primeira vez desde meados da década de 1980.

Para a Argentina, a forte concorrência do Brasil é apenas um dos desafios no curto prazo. Rodolfo Rossi, representante dos atores da rede naquele país, alerta que os Estados Unidos também antecipam um aumento “significativo” no processamento da soja. “De qualquer forma, há oportunidades em novos mercados na África e em alguns países da América Latina”, disse.

Assim, enquanto a busca da China por maior autossuficiência na produção de soja provavelmente levará tempo e enfrentará vários obstáculos, Brasil e Argentina têm oportunidades de permanecer como players relevantes no mercado global.

Diversificação de mercado, foco na indústria local e exploração de novos destinos de exportação serão importantes áreas a serem exploradas pelo seu agronegócio. Mas em um cenário global em mudança e em meio a uma crescente crise climática, a indústria da soja em ambos os países pode precisar mostrar adaptabilidade e inventividade se quiser manter a estabilidade e o crescimento das últimas décadas.


Este artigo foi originalmente publicado no site de informações Diálogo Chino e replicado na Inter Press Service. (Tradução Tatiana Carlotti)

Foto de capa: Máquinas de colheita de soja na província de Heilongjiang, China. A potência asiática, maior compradora mundial de soja, planeja aumentar a produção doméstica da leguminosa e reduzir sua dependência de importações. (Imagem: Alamy)

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