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O fantasma que ronda a Espanha

O fantasma que ronda a Espanha

O comunismo tem sido o permanente inimigo escolhido pela direita e a extrema direita em todos os países onde os movimentos neofascistas ambicionam o poder. Fiéis à tática de eleger um inimigo para atrair o ódio, obter e influenciar seguidores, estes movimentos atribuem aos comunistas um poder que eles não possuem para mais uma vez incutir o medo e radicalizar a política

Santiago Abascal é um basco de 45 anos que pertence a uma família de políticos que fizeram carreira durante a ditadura de Francisco Franco. O radicalismo de direita com as cores do fascismo aprofundou-se na família e consolida-se em Abascal, que hoje lidera o Vox, partido de extrema direita que tem agitado o ambiente político da Espanha. Membros da família Abascal chegaram a ser jurados de morte pelo ETA, o movimento separatista basco que dos anos 1950 até 2011 realizou atentados e uma forte ação política.

Santiago, formado em Sociologia, militou no PP-Partido Popular, da direita moderada, até alegar divergências ideológicas e sair para organizar o Vox, assumindo definitivamente um perfil de extrema direita na velha tradição fascista ainda existente na política espanhola e que vem de antes da Guerra Civil. De 2013, quando foi fundado, até 2018, o Vox acumulou fracassos, mas com a crise dos refugiados e o apoio de uma classe média amedrontada o Vox começou a dar as caras na Espanha. Os movimentos separatistas espanhóis, principalmente o da Catalunha, são também temidos pela classe média que neles enxerga o perigo de desestabilização do país. O Vox também explora esses temores e com isso tem obtido rendimento eleitoral.

Crescimento

Com 33 deputados eleitos em 2023 para as Cortes Gerais espanholas, o que representa 12,39 por cento dos votos, o partido tem hoje expressão nacional como terceira força do país e ambiciona maior poder e influência na política espanhola.

Como se estivesse a fazer um elogio, o estrategista neofascista estadunidense Steve Bannon disse que o Vox e seu líder Santiago Abascal “estão próximos de Bolsonaro e Salvini”, este último o líder do Liga, partido neofascista italiano que atualmente divide o poder com o também neofascista Fratelli d’Italia de Giorgia Meloni.

Com o sucesso nas eleições, o Vox resolveu dar o salto internacional e dirige suas ambições para a América Latina. O Brasil não se encontra distante dos seus objetivos.

Anticomunismo

O comunismo tem sido o permanente inimigo escolhido pela direita e a extrema direita em todos os países onde os movimentos neofascistas ambicionam o poder. Fiéis à tática de eleger um inimigo para atrair o ódio, obter e influenciar seguidores, estes movimentos atribuem aos comunistas um poder que eles não possuem para mais uma vez incutir o medo e radicalizar a política.

Um manifesto autodenominado Carta de Madri, liderado pelo Vox, alerta para o que chama de avanço do comunismo na Ibero-Esfera, denominação dos países ibéricos da América Latina adotada naquele documento. Segundo o tal manifesto, uma parte da América Latina já teria sido sequestrada por regimes totalitários de inspiração comunista, com apoio do narcotráfico e do regime cubano.

Veja Também:  Porque a extrema-direita cresce na Europa

Abascal pretende, a partir do seu manifesto, com pouco mais de oito mil assinaturas, estabelecer uma estrutura organizacional e um plano anual de ação. A partir daí, criar o Foro de Madri, uma alternativa, diz ele, ao Foro de São Paulo e ao Grupo de Puebla. Entre os seus alvos estão Lula da Silva e o PT brasileiro, o Partido Comunista de Cuba e políticos sociais-democratas a exemplo de Alberto Fernandez, Evo Morales, Rafael Correa, Pepe Mujica, José Luis Rodriguez Zapatero.

Já declarou o seu apoio a Javier Milei nas eleições da Argentina.

Como membros do Foro de Madri foram recrutados entre outros Andrés Pastrana, da Colômbia, Keiko Fujimori, do Peru, líderes do partido ultradireitista da Polônia Lei e Justiça, André Ventura, do Chega, de Portugal, além dos indefectíveis Viktor Orbán da Hungria e Eduardo Bolsonaro, do Brasil.

O programa ideológico do Vox, que ele agora pretende exportar, registra que o partido se posiciona contra o aborto e o casamento entre pessoas do mesmo sexo, é anti-imigração, islamofóbico e eurocético, além de sugerir que Portugal é uma província da Espanha. Esta última afirmação mereceu um suave protesto de André Ventura, líder do Chega.

Principais pontos do programa do Vox:

  • Unitarismo: O Vox defende um estado espanhol mais centralista, com menos autonomia para as regiões. O partido também se opõe ao separatismo e à independência.
  • Tradição: O Vox defende os valores tradicionais da família, da religião e da cultura espanhola. Opõe-se ao aborto, ao casamento gay e à imigração ilegal.
  • Economia: O Vox defende uma economia de livre mercado, com menos intervenção do governo. O partido também se opõe à globalização e à União Europeia.

“Deus, Pátria e Família”, o velho slogan dos integralistas brasileiros, volta a ganhar um sopro de odor apodrecido no território da denominada ibero-esfera. Sob patrocínio espanhol.

*Imagem em destaque: Santiago Abascal (Flickr/Vox)

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