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Por fim, Arévalo assume a presidência da Guatemala em luta contra a corrupção

Por fim, Arévalo assume a presidência da Guatemala em luta contra a corrupção

O novo presidente, sociólogo e ex-diplomata de 65 anos, filho do primeiro presidente democraticamente eleito do país, o educador Juan José Arévalo (1945-1951), reiterou seu compromisso de “transformar as instituições do Estado e a realidade cotidiana” dos guatemaltecos.

CORRESPONDENTE IPS

GUATEMALA – Em uma cerimônia de madrugada, nove horas após o previsto e após sete meses de batalhas legais em defesa de sua eleição, o progressista Bernardo Arévalo foi finalmente juramentado perante ao Congresso, na última segunda-feira (15), presidente da Guatemala para o período de 2024 a 2028.

Arévalo reiterou sua promessa de “uma nova primavera”, que começará com uma luta contra a corrupção que corroeu o Estado guatemalteco neste século. “Hoje começam quatro anos de um mandato que será marcado por uma série de obstáculos. Sabemos que a mudança pode ser difícil”, advertiu.

Os obstáculos foram escancarados já na cerimônia de posse, programada para domingo (14), quando o Congresso unicameral, com 160 cadeiras e cujas principais bancadas estão nas mãos de forças tradicionais, atrasou a sua instalação por longas horas, sabotando efetivamente a posse do novo presidente.

Testemunhas de destaque foram os chefes de Estado que compareceram à posse: o rei Felipe VI da Espanha e os presidentes Gabriel Boric (Chile), Gustavo Petro (Colômbia), Rodrigo Chaves (Costa Rica), Xiomara Castro (Honduras), Florentino Cortizo (Panamá) e Santiago Peña (Paraguai), além de delegações de alto nível de outros países americanos e da União Europeia.

Vários desses participantes tiveram que voltar a seus países para cumprir compromissos previamente assumidos antes da posse de Arévalo. O presidente Petro recusou uma viagem a Davos, Suíça, para permanecer na Guatemala até a transferência de poder acontecer.

Quando as discussões no Congresso se tornaram mais complicadas, já no meio da tarde de 14 de janeiro, os ministros das Relações Exteriores presentes na Guatemala pressionaram pela resolução dos problemas, instalando e elegendo uma nova diretoria para cumprir a cerimônia de juramentação.

Milhares de apoiadores indignados de Arévalo, principalmente jovens e indígenas, agitavam-se nas ruas centrais da capital, junto à sede do parlamento e do teatro, onde se esperava a posse de Arévalo e de Karin Herrera, sua companheira de chapa, eleita como vice-presidente.

Os atrasos nos trâmites parlamentares se referiam a questões não resolvidas, como o encerramento adequado da legislatura anterior, o reconhecimento de credenciais e bancadas para o novo período legislativo, e a eleição de uma nova diretoria do Congresso, fundamental para impulsionar ou (em seu defeito) bloquear as iniciativas de Arévalo.

O pano de fundo para a passagem das horas entre reuniões e intervalos é a disputa entre a corrente renovadora representada por Arévalo e seu jovem partido Semilla, e as forças tradicionais.

Arévalo surpreendeu no primeiro turno das eleições presidenciais em junho de 2023, pois não estava entre os favoritos, mas ficou em segundo lugar. Em 20 de agosto, ele venceu o segundo turno com mais de 60% dos votos, derrotando Sandra Torres, candidata das forças que controlam o poder há décadas.

Na Guatemala, a coalizão informal entre membros do governo, do parlamento, do judiciário, de grupos militares e empresariais, conhecida como “Pacto de Corruptos”, cooptou o Estado em benefício próprio, criando barreiras não apenas para as mudanças, mas também para a escrutinação nacional e internacional.

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O novo presidente, sociólogo e ex-diplomata de 65 anos, filho do primeiro presidente democraticamente eleito do país, o educador Juan José Arévalo (1945-1951), reiterou seu compromisso de “transformar as instituições do Estado e a realidade cotidiana” dos guatemaltecos.

Em seu breve discurso após prestar juramento, Arévalo disse que “é graças aos jovens da Guatemala, que não perderam a esperança, que hoje posso falar com vocês deste pódio”, e aos movimentos indígenas que se mobilizaram em seu apoio e para os quais ele se declarou “consciente das dívidas históricas que precisamos resolver”.

“Não mais corrupção, não mais exclusão”, resumiu.

Após a cerimônia, o presidente visitou o acampamento de protesto mantido por grupos indígenas e jovens universitários em frente à Procuradoria-Geral, exigindo a renúncia da procuradora-geral Consuelo Porras.

A multidão, que confrontou as barreiras policiais durante a tarde, deixando vários policiais e manifestantes feridos, comemorou com música e dança nas ruas a presença de Arévalo com a faixa presidencial cruzada sobre o peito.

Porras, com o respaldo tácito do presidente cessante Alejandro Giammattei e grupos de pressão, obstruiu por meses tanto a proclamação de Arévalo quanto o reconhecimento do partido Semilla e dos deputados eleitos pelo grupo.

Esses obstáculos culminaram no dia 14, quando os partidos agora de oposição questionaram a possibilidade de deputados do Semilla integrarem a nova diretoria do parlamento.

No entanto, o Semilla conseguiu costurar uma aliança, e um de seus membros, o jovem Samuel Pérez, foi eleito presidente do novo Congresso e prestou o juramento protocolar a Arévalo e à Herrera.

Arévalo também reconheceu o apoio internacional à sua eleição, sustentado pela maioria dos governos americanos e europeus, órgãos das Nações Unidas, da Organização dos Estados Americanos e entidades de direitos humanos.

Enquanto enfrenta o desafio da forte oposição dos grupos de poder em seu país, Arévalo deve lidar com as expectativas da juventude que exige mudanças – e que continua alimentando os contingentes migratórios – e da população que vive na pobreza, 60% dos quase 19 milhões de guatemaltecos.

Arévalo desponta como uma referência para equilibrar as forças e fortalecer o desenvolvimento da democracia política com progresso social na América Central, onde governos autoritários têm mostrado expressões severas, criticados por suas políticas contra os direitos humanos, como os de Nicarágua e El Salvador.

O novo presidente se referiu a essa realidade ao indicar em seu discurso que “o mundo está sendo confrontado por uma onda de autoritarismo, propagação da intolerância e restrição do dissenso”.

Ele afirmou que “enfrentamos novos fenômenos autoritários, como a cooptação corrupta das instituições estatais por grupos criminosos que exploram sua aparência democrática para trair os princípios de liberdade, equidade, justiça e fraternidade nos quais se fundamentam”.

“Esta é a luta que estamos enfrentando na Guatemala e em outras partes da América Central”, concluiu Arévalo.

Bernardo Arévalo jura como o novo presidente da Guatemala nas primeiras horas da manhã, após uma sessão atrasada no Congresso do seu país. Ele enfrentará um mandato de quatro anos com fortes obstáculos das forças opositoras rotuladas como “pacto de corruptos”, contra as quais insurgiu com o apoio de grupos juvenis e indígenas. Imagem: Semilla

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