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A hipocrisia dos EUA sobre os assassinatos da Rússia e de Israel

A hipocrisia dos EUA sobre os assassinatos da Rússia e de Israel

Fornecer armas a uma força envolvida com crimes de guerra pode tornar o remetente dessas armas culpado e cúmplice dos crimes. Essa foi a base da condenação do antigo presidente da Libéria, Charles Taylor, pelo Tribunal Especial para a Serra Leoa.

POR THALIF DEEN

NAÇÕES UNIDAS, 2 de janeiro de 2024 (IPS) – Quando o presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, criticou “o maior ataque aéreo” que atingiu “uma maternidade, um shopping center e áreas residenciais matando pessoas inocentes”, ele não estava falando dos devastadores ataques israelenses em Gaza, mas criticando o mais recente ataque militar russo à Ucrânia.

Biden obviamente tem um critério para os russos e outro para os israelitas – exibindo pura hipocrisia e padrões políticos duplos.

A declaração emitida pela Casa Branca na semana passada dizia: “É um forte lembrete ao mundo que, após quase dois anos de guerra devastadora, o objetivo de Putin permaneça inalterado. Ele busca destruir a Ucrânia e subjugar o seu povo. Ele deve ser parado”.

Sob um ângulo mais realista, a declaração de Biden poderia ter sido: “… o objetivo de Netanyahu permanece inalterado. Ele procura destruir a Palestina e subjugar o seu povo. Ele deve ser parado.”

O quadro mais contrastante são os 21.700 assassinatos de civis em Gaza, incluindo 8.697 crianças e 4.410 mulheres, em comparação com o grande número de civis mortos na semana passada pelos russos. Ainda assim, o resultado é que não há justificativa para nenhum dos dois.

Edifícios destruídos em Odesa, uma cidade portuária no sul da Ucrânia. Crédito: UNOCHA/Alina Basiuk

Norman Solomon, diretor-executivo do Institute for Public Accuracy e diretor nacional do RootsAction.org, afirmou à IPS que os passos retóricos de Biden caíram com os dois pés numa zona orwelliana, inadequadamente descrita como “hipocrisia”.

Biden acerta apenas parcialmente ao condenar a Rússia e, ao mesmo tempo, apoiar Israel.

“Na realidade, o presidente mergulhou os EUA num abismo imoral tão profundo que criou uma enorme repulsa dentro dos Estados Unidos e em grande parte do resto do mundo”.

Biden está tão ansioso para ajudar os militares israelenses a continuar matando palestinos em massa em Gaza, que contornou duas vezes o Congresso para autorizar grandes carregamentos de armamento para Israel, apesar de saber que o governo dos EUA está ajudando e encorajando diretamente, de forma sistemática e em grande escala, a matança de crianças, mulheres e outros civis, afirmou Solomon, autor de War Made Invisible: How America Hides the Human Toll of Its Military Machine.

O fugaz comentário de Biden no mês passado, de que Israel deveria parar com o seu “bombardeio indiscriminado” em Gaza, foi rapidamente rejeitado pela Casa Branca. Os EUA ajudaram notavelmente o bombardeamento indiscriminado, enviando 5.000 bombas de 2.000 libras para Israel desde outubro.

Em suma, apontou Solomon, as condenações de Biden à Rússia se aplicam plenamente a Israel e também aos EUA como participante direto na carnificina que já ceifou mais de 20.000 vidas de civis em Gaza durante os últimos três meses.

“O mundo precisa desesperadamente de um padrão único de direitos humanos e de uma adesão real ao direito internacional. Biden zomba de ambos os conceitos ao denunciar justificadamente a guerra da Rússia contra os ucranianos, mas ajuda poderosamente Israel a envolver-se numa guerra genocida contra o povo palestino em Gaza”.

“Em todo o mundo, precisamos de protestos sustentados e de intensa pressão diplomática para o fim da carnificina, começando com um cessar-fogo imediato e permanente”, declarou.

Num artigo analítico publicado no Common Dreams, um site dos EUA, Jessica Corbett, editora sênior e redatora da equipe, aponta que embora as guerras na Ucrânia e na Faixa de Gaza sejam diferentes por inúmeras razões, os líderes ocidentais foram chamados de hipócritas por se oporem à invasão russa, mas apoiar o que os especialistas globais alertam ser uma operação “genocida” israelense – críticas renovadas na sexta-feira passada em resposta à declaração do presidente norte-americano.

A declaração de Biden veio após a Rússia lançar o “ataque aéreo mais massivo” desde que invadiu a Ucrânia, em fevereiro de 2022, matando dezenas, ferindo mais de 150 e atingindo “mais de 100… casas particulares, 45 edifícios residenciais de vários andares, escolas, duas igrejas, hospitais, uma maternidade e muitas instalações comerciais e de armazenamento”, segundo o presidente ucraniano Volodymyr Zelensky.

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Após notar o impacto do “bombardeio massivo”, Biden criticou diretamente o presidente russo Vladimir Putin, afirmando que seu objetivo permanece inalterado. “Ele procura destruir a Ucrânia e subjugar o seu povo. Ele deve ser parado”.

O jornalista Mehdi Hasan – cujo programa na MSNBC acabou de ser cancelado após oferecer uma rara cobertura crítica do ataque israelita apoiado pelos EUA a civis em Gaza – partilhou essa parte das observações do presidente nas redes sociais com uma sugestão:

“Desafio-vos a ler esta declaração da Casa Branca hoje… mas… mudem as palavras Rússia, Ucrânia e Putin para Israel, Gaza e Netanyahu”, disse referindo-se ao primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu. “Prossiga. Faça isso. Veja por si.”

Em entrevista com Connor Echols, repórter da Responsible Statecraft, Kenneth Roth, o ex-diretor executivo da Human Rights Watch (HRW) afirmou que a administração Biden tem sido bastante tolerante com o governo de Israel, apesar da prática evidente de crimes de guerra em Gaza.

“Embora a administração tenha pressionado para atenuar alguns desses crimes de guerra – e pelo acesso humanitário, apelando por uma maior atenção para evitar vítimas civis – o impulso retórico não é apoiado pelo uso da influência que a administração tem e que poderia realmente pressionar o governo de Israel a parar – seja retendo ou condicionando as vendas de armas e/ou a assistência militar em curso, ou mesmo permitindo que a resolução do Conselho de Segurança fosse aprovada”.

Questionado sobre como seria uma abordagem melhor, Roth avalia que o problema inicial era que Biden se envolveu incondicionalmente na resposta do governo de Israel aos horríveis ataques de 7 de Outubro perpetrados pelo Hamas. Se olharmos para os seus comentários iniciais, embora houvesse advertências escritas sobre a necessidade de respeitar o direito humanitário, não havia nenhum impacto emocional por trás delas.

“Ficou bastante claro que Biden simplesmente apoiou Israel e lhe deu sinal verde para prosseguir com a resposta militar contra o Hamas, sem muito esforço, pelo menos durante as primeiras semanas, para garantir que a reação cumprisse realmente o direito humanitário”.

“Portanto, penso que o governo israelita recebeu a mensagem de que as referências ao direito humanitário eram necessárias para determinados públicos, mas que o coração da administração não estava neles”, frisou.

Questionado sobre se as autoridades norte-americanas poderiam ser legalmente consideradas cúmplices, caso se descobrisse que Israel cometeu crimes de guerra em Gaza, Roth afirmou: “Poderiam ser. A referência de Biden aos militares israelenses que conduziram bombardeios indiscriminados não foi apenas um deslize verbal. Provavelmente, ela reflete conversas internas mantidas pelo governo. O segundo até parece ter sido um tanto deliberado”.

A importância disso é que o bombardeamento indiscriminado é um crime de guerra. Como qualquer advogado administrativo sabe, continuar a fornecer armas a uma força envolvida com crimes de guerra pode tornar o remetente culpado por ajudar e cúmplice desses crimes.

“Isso não é uma teoria maluca. Ela foi a base com a qual o antigo presidente da Libéria, Charles Taylor, foi condenado por um tribunal apoiado internacionalmente, o Tribunal Especial para a Serra Leoa, por fornecer armas ao grupo rebelde Frente Revolucionária Unida (RUF em inglês), conhecido por decepar os membros de suas vítimas”, contou Roth.

Como Taylor continuou a fornecer armas em troca dos diamantes da RUF, mesmo sabendo que a RUF estava cometendo crimes de guerra, esse Tribunal apoiado internacionalmente pode considerá-lo culpado de ajuda e de cumplicidade e o condenou a 50 anos de prisão, que ele cumpre atualmente em uma prisão britânica, complementou.

Artigo publicado originalmente na Inter Press Service (Escritório da ONU).


Criança em Gaza. Foto: UNICEF/UNI448902/Ajjour. Reportagem: Crianças, adolescentes e famílias estão em situação catastrófica em Gaza.

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