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Dois gigantes no Globo de Ouro 2024

Dois gigantes no Globo de Ouro 2024

Dois gigantes no Globo de Ouro 2024

Léa Maria Aarão Reis

Foi uma luta de titãs na arena de Hollywood batalhando pelo prêmio do Globo de Ouro deste ano. Duas cinebiografias com a trajetória espetacular de dois mitos da vida norte americana da primeira metade do século vinte rivalizaram e ainda estão disputando as maiores bilheterias nas plataformas de streaming e em cinemas daqui e de fora.

Quem já viu Oppenheimer e O Maestro sabe do que se está falando. São duas megaproduções que combinam com eficiência algumas concessões ao espectador das grandes plateias de massa com a qualidade de alto padrão do cinema clássico americano.

Oppenheimer ganhou por pouco a disputa. Do festejado diretor britânico Christopher Nolan, recebeu o Globo de Ouro deste ano e traz um Cillian Murphy, super ator que vestiu a complexa personalidade do extraordinário físico nuclear conhecido como o ‘pai da bomba atômica’.

Mas do outro lado do ringue estava, como ainda está, Maestro, com a brilhante e apaixonada interpretação do ator Bradley Cooper (ele também é o diretor do filme), apresentando outra personalidade especial, o lendário maestro da Filarmônica de Nova Iorque, Leonard Bernstein, com a sua trajetória pessoal desenhada no roteiro do próprio Cooper e de Josh Singer, oscarizado há sete anos, com o prêmio de melhor roteiro original. É um excelente roteirista.

Abaixo, editamos trechos das resenhas publicadas aqui há poucos meses, em agosto e dezembro de 2023 considerando que ambos os filmes se encontram à disposição do grande público nas telonas dos cinemas e nas plataformas digitais, neste mês cinematográfico de verão no sul, de férias e de ocasional lazer que antecede a festa do Oscar, dia 10 de março próximo.

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Oppenheimer: Prometeu entre a Ciência e a Política

O ator Cillian Murphy está magnífico no papel de Oppenheimer. Seu trabalho é um suporte decisivo na composição da personalidade complexa do gênio da ciência no século passado, amigo de Einstein que nutria por ele grande admiração.

Foi em uma biografia premiada com o Pullitzer, American Prometheus – The Triumph and Tragedy of J. Robert Oppenheimer*, de Kai Bird e Martin J. Sherwin, que o brilhante diretor britânico Christopher Nolan encontrou inspiração e se baseou para fazer o seu Oppenheimer transformado em surpreendente blockbuster cinematográfico mundial. O filme é uma das maiores bilheterias da temporada de verão do hemisfério norte.

Além de aclamação quase unânime da crítica especializada em cinema, no primeiro fim de semana em cartaz Oppenheimer arrecadou cerca de 81 milhões de dólares nas bilheterias dos Estados Unidos e do Canadá, e mais 90 milhões em todos os países em que foi apresentado nos três primeiros dias.

O jornalista e escritor Kai Bird explica assim o estrondoso sucesso do filme de Nolan: “Ele conseguiu colocar a extrema complexidade da vida pessoal de Oppenheimer em imagens magníficas da arte do cinema e foi fiel ao ser humano e à História”. O resultado é uma cinebiografia fascinante do homem que liderou o histórico Projeto Manhattan no qual foi criada a bomba atômica, apesar da onipresença no filme de três horas do árduo tema para o grande público, ou seja, Ciência pura e Física Teórica.

O filme retrata os primeiros anos das atividades do filho de próspera família de comerciantes de origem judaica de Nova Iorque, e em seguida o cientista em Berkeley, na Inglaterra e na Alemanha pesquisando astrofísica, física nuclear, espectroscopia e teoria quântica de campos até se tornar famoso e ser reconhecido como um dos pioneiros da escola norte-americana da Física Teórica.

No elenco, além de Cillian Murphy, Matt Damon e Robert Downey Jr., e que também brilham, um como a autoridade militar em Los Álamos e o outro como o burocrata carreirista que infernizou a vida do colega. Emily Blunt interpreta Katherine ‘Kitty’ Oppenheimer, e a atriz Florence Pugh faz Jean Tatlock, repórter e escritora, membro do Partido Comunista americano e amante do cientista.

Albert Einstein surge numa sequência rápida, interpretado pelo excelente ator Tom Conti, lembrando que foi o cientista o autor da histórica carta ao então presidente Theodore Roosevelt recomendando que o país prestasse atenção no trabalho daquele companheiro, Oppenheimer, e se envolvesse em pesquisas sobre armas nucleares.

Líder natural, carismático e envolvente, mas introvertido, sereno e culto, o “pai da bomba atômica”, que possuía o livro sagrado do hinduísmo na sua estante, o Bhagavad Gita (A Canção do Senhor), foi convocado pelo governo americano de Franklin Roosevelt para chefiar pesquisas no Projeto Manhattan, montado no deserto texano.

Lá, Oppenheimer e o seu grupo de cientistas de elite criaram a arma de extraordinário poder de ‘dissuasão’, o dispositivo que ensejaria o fim da Segunda Guerra Mundial. O objetivo era destruir de vez o inimigo japonês que, em 1945, antes da bomba estourar, já estava praticamente vencido.

As carnificinas de Hiroshima e de Nagasaki encerraram a guerra, mas a partir de então Oppenheimer começou a ser cobrado e perseguido por não se mostrar motivado para continuar trabalhando no projeto de um outro artefato, uma bomba definida como ‘arma defensiva’ no jargão do governo e dos militares norte-americanos.

Oppie, como o chamavam os amigos, era contra o uso da bomba de hidrogênio que libera uma quantidade de energia várias vezes maior que a anterior.

O ritmo do filme de Christopher Nolan absorve e é atraente. Um dos melhores cineastas em atividade no cinema anglo-saxão, ele maneja e mescla com inteligência as filigranas científicas do mundo de Oppenheimer com o universo das intrigas e das manobras políticas e militares da era do pós-guerra dos anos 50.

A competição e desconfiança entre ex-aliados na guerra, em particular a sempiterna e obsessiva rivalidade dos estadunidenses com os russos; o monumental narcisismo dentro da comunidade de estrelas cientistas e os episódios da era fascista da histérica “perseguição às bruxas” do senador Joseph McCarthy, levaram Oppenheimer ao isolamento.

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“Como você pôde ser tão ingênuo”, diziam os amigos ao cientista, quando começaram a acusá-lo de comunista e traidor. O ex-diretor do laboratório atômico de Los Álamos foi convocado a testemunhar, durante meses, em duras e humilhantes audiências diante do Comitê Especial do Senado sobre Energia Atômica. No filme, algumas sequências exasperadas mantêm o interesse do espectador.

Vê-se sublinhada em diversos momentos a força do embate entre Ciência versus Política, esta acompanhada das instituições militares. A primeira, dependente das duas seguintes para se financiar e seguir pesquisando com a anuência de políticos e militares instalados no poder do momento.

Conduzindo Oppenheimer ao clima de thriller, muitas vezes recorrendo à trilha musical pontuada de prenúncios, acordes sombrios e carregados de suspense, Nolan desenrola detalhes desconhecidos até hoje por alguns espectadores mais idosos que na sua juventude viveram os tempos de arrasadora campanha de propaganda política dos governos americanos da época.

Nolan abre a porta desses bastidores também para as plateias mais jovens que assim têm acesso a um retrato honesto de Oppie com todas as contradições e perplexidades humanas e um dos personagens mais fascinantes do século 20. O filme é imperdível e o tema será sempre necessário em novas produções sobre o assunto.

 Some-se a esses fatos históricos o momento de alta voltagem do mundo de agora, as guerras convencionais e as nefastas guerras híbridas, os golpes políticos, a violência extremada e naturalizada do neofascismo, e o medo das permanentes ameaças nucleares que pipocam quase diariamente vindas de todos os lados, explica-se aí o sucesso da bilheteria de Oppenheimer. É um filme imperdível.

*O livro Oppenheimer – O triunfo e a tragédia do Prometeu americano é da Editora Boitempo. As notas no fim do volume, a bibliografia e o índice remissivo da edição física do livro estão disponíveis, gratuitamente, em formato digital no site da editora.

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O século de ouro de Bernstein

Forte candidato ao Oscar deste ano, Maestro está no grupo dos filmes mais assistidos no streaming. A produção, bancada nada menos do que por Martin Scorsese e Steve Spielberg, não trata da carreira profissional de Bernstein. Quem espera um filme musical com peças conduzidas por ele sairá decepcionado. O roteiro segue o regente no seu perfil humano, na trajetória familiar afetuosa com a mulher e os três filhos e na sua rotina sexual como gay– ou bissexual.

Até ele surgir na cena da música erudita como o ”primeiro grande maestro americano”, os grandes compositores e regentes em atividade eram europeus: Bruno Walter, os mestres Toscanini, Karl Böhm, Stokowski, Furtwangler, o russo Koussevitz entre muitos outros.

O filme enfatiza o profundo amor que Bernstein viveu com a atriz Felicia Montealegre (Carey Mulligan), com quem casou e viveu durante 25 anos e, principalmente, a intensidade existencial do maestro que fez dele, além de um grande artista, alguém especial.

Maestro tem início com o episódio do maestro, em 1943, aos 27 anos de idade, sendo chamado de manhã, de repente, para substituir o lendário regente alemão Bruno Walter de quem era assistente na Filarmônica, para um concerto no Carnegie Hall à noite. Ao terminar a apresentação ele deixa o teatro ovacionado pela multidão que lotava a sala e se consagrava ali como uma nova grande estrela.

Nesse começo em que Bernstein salta da cama onde dormia com um namorado ele inicia o seu destino lendário na música erudita e na autoria de trilhas sonoras inesquecíveis como a do filme Sindicato de Ladrões e, em particular, de West Side Story/Amor, Sublime Amor, letra de Stephen Sondheim, em companhia do qual redefiniu o gênero musical do cinema americano.

Bradley Cooper levou mais de cinco anos trabalhando em Maestro, um tema e um personagem que o apaixonavam. Chegou a se submeter a uma prótese no nariz para se assemelhar o máximo possível a Bernstein na meia idade e aperfeiçoou uma interpretação dele extrovertida, sempre alegre, cheia de energia, de entusiasmo pela vida e paixão pela música, por vezes exagerada e até desabusada. Busca encarnar e reviver com o máximo de realismo o impetuoso personagem.

Há quem ache Maestro um filme pedante e pretensioso. É curioso porque na sua primeira parte ele pode passar essa sensação, de cinebiografia modelo dejá vu. Mas a partir dos “tormentos vividos por uma personalidade dividida”, como chega a comentar com amigas a sua mulher, Felícia, os dois atores, Cooper e Carey Mulligan, amadurecem com seus personagens e iniciam um formidável show de trabalho dramático.

Algumas sequências são tocantes: a delicada conversa que Bernstein tem com a filha mais velha, Jamie, adolescente universitária que sofre com as fofocas sobre a vida sexual do pai famoso, e a deixam perplexa. Outra: a energia com que o regente procura Felícia, nos bastidores do teatro, ao fim de uma das suas apresentações avassaladoras, e os dois se abraçam apaixonadamente. E a observação da sua mulher, em conversa com amiga, durante o período da separação do casal: “Desde o começo eu soube quem era Leonard. Não houve desonestidade da parte dele de omitir sua sexualidade. Se alguém foi desonesta, não foi ele”.

Uma carência sentida no filme é a ausência de contextualização, do ambiente da vida como ocorria, na época do maestro: o século americano do pós Segunda Guerra Mundial, quando a indústria cultural dos Estados Unidos era adorada, copiada e consumida pelas multidões do mundo ocidental.

Hoje, o cinema americano saúda, com alguma nostalgia, essa época de ouro do Império do Norte que agora parece começar a se desfazer. e com frequência se alimenta de várias das biografias de titãs como Oppenheimer e Bernstein.

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