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Gildo, a recriação da Comissão dos Mortos e Desaparecidos Políticos e a vitória da esquerda na França

Gildo, a recriação da Comissão dos Mortos e Desaparecidos Políticos e a vitória da esquerda na França

Por Mariluce Moura*

Hoje, 8 de julho de 2024, Gildo Macedo Lacerda faria 75 anos.

Mas, assassinado pela ditadura em 28 de outubro de 1973, seu último aniversário vivo foi o de 24 anos. Nos vimos pela última vez em 22 de outubro de 1973, na Superintendência da Polícia Federal em Salvador, dentro do longo silêncio imposto pelos agentes armados sob as ordens do coronel Luiz Arthur de Carvalho.

Naquela segunda-feira solar, em nosso calendário pessoal, nos aproximávamos da celebração de nosso primeiro aniversário de casamento — nós, um jovem casal encantadoramente apaixonado, embalado por projetos e sonhos, dos quais, o fim da ditadura opressiva que sufocava o país e a nós pessoalmente era o mais vasto e abrangente.

No calendário da repressão, entretanto, aquela tarde em que nos sequestraram na rua, à vista de todos os passantes, era o começo da rota para o assassinato daquele jovem líder estudantil, militante da APML, dentro do quartel general do IV Exército em Recife, apenas seis dias depois. Numa crueldade extra, exatamente na mesma data em que faríamos um ano de casados! Soube do assassinato em 1º de novembro, contado/disfarçado numa invencionice da nota oficial do exército sobre um tiroteio que teria acontecido na esquina da Avenida Caxangá com a Rua General Polidoro, em Recife. A nota fora lida no Jornal Nacional/Tv Globo na véspera, fora publicada por todos os matutinos naquela manhã e chegava às minhas mãos pelas do capelão da VI Região Militar, que portava um jornal baiano. Eu estava grávida, sozinha, isolada num quarto do quartel do Forte de São Pedro, no centro de Salvador. Naquele primeiro dia de um tempo devastador, permitiram que, à tarde, meus pais, irmãs e irmãos, me visitassem.

Faço parte da última geração viva que acompanhou a instalação da ditadura civil-militar em 1964, adolescente ainda, seu extremo endurecimento a partir do Ato Institucional número 5 (AI-5) em dezembro de 1968, então jovem militante estudantil, a exacerbação do terrorismo de estado nos anos seguintes, e a continuidade da luta contra a opressão. Essa geração, acreditamos, tem a obrigação ética e política de fornecer à História, sob múltiplas formas, o testemunho de um tempo de horror que a história oficial largamente busca manter na sombra.

Essa obrigação, somada a imperativos dos sentimentos, me fez denunciar logo ao ser solta em dezembro de 1973, à CNBB, único canal então disponível para mim, os acontecimentos de outubro, incluindo a não devolução do corpo de Gildo aos familiares para os devidos ritos fúnebres; a reiterar na auditoria militar, em 1974, essa denúncia de ocultação do corpo; a militar no movimento crescente pela anistia na segunda metade dos anos 1970; a escrever em 1980 o romance A revolta das vísceras; a me integrar desde o começo, na década seguinte, à luta dos familiares de mortos e desaparecidos políticos por justiça. E ali estávamos, juntas e juntos, Tessa incluída (filha minha e de Gildo), em 4 de dezembro de 1995, quando o governo FHC sancionou a Lei no 9.140 que instituiu a Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos. Assim seguíamos, quando o governo Dilma Rousseff sancionou em novembro de 2011 a Lei 12.528, que instituiu a Comissão Nacional da Verdade, cujas recomendações, publicadas em 2014, estão ainda por ser cumpridas.

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Fazem parte dessa mesma resistência os livros que tenho editado – A revolta das vísceras e outros textos, meu, e Pela memória de um paí[s]: Gildo Macedo Lacerda, presente!, de Tessa Moura Lacerda. Assim como nosso documentário cuja produção está em curso, com nome provisório “Operação Cacau”. Ele parte da rememoração de Gildo para abordar o assassinato de sete militantes da APML entre outubro de 1973 e fevereiro de 1974, quase todos jovens entre 24 e 27 anos — apenas o ex-deputado Paulo Wright tinha 40 anos —, no contexto político e cultural daquele período.

Ante o panorama dessa luta, só posso comemorar a recriação da Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos por decreto do presidente Lula, no último dia 3 de julho. Instituição de estado, e não de governos, a Comissão tinha sido ilegalmente dissolvida em 14 de dezembro de 2022 pelo tão nefasto governo anterior. É sua reinstalação que nos dá agora novo alento e esperança de que seus objetivos serão cumpridos, sem que as forças armadas deste país atrapalhem sua missão. Conforme o texto no site do próprio governo:

“A CEMDP foi criada com a finalidade de proceder ao reconhecimento de pessoas mortas ou desaparecidas em razão suas atividades políticas; de envidar esforços para a localização dos corpos de tais indivíduos; e de emitir parecer sobre os requerimentos relativos a indenização que venham a ser formulados por seus familiares, em consonância com os prazos e demais diretrizes estabelecidas nas Leis nº 9.140/1995, nº 10.536/2002 e nº 10.875/2004”.

Para finalizar, neste 8 de julho marcado por memórias tristes, há ainda uma segunda razão para júbilo, além da recriação da CEMDP: a espetacular virada na eleição francesa de ontem, com a vitória da esquerda e, em aliança com o centro, o chega pra lá dado na extrema direita. Que a tendência de ares mais respiráveis se espraie largamente!!!!

GILDO MACEDO LACERDA, PRESENTE!!!!

PARA QUE NÃO ESQUEÇAMOS, PARA QUE NUNCA MAIS ACONTEÇA!

* Mariluce Moura é jornalista brasileira, criadora de uma das mais importantes revistas de divulgação científica brasileira, a Pesquisa Fapesp, que dirigiu entre os anos de 1999 e 2014. Foi presidente da Associação Brasileira de Jornalismo Científico e desenvolveu o projeto “Ciência na Rua” em parceria com o grupo de pesquisa Labjor, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Atuou como repórter e editora no Jornal da Bahia, Tribuna da Bahia, O Globo, Jornal do Brasil, Gazeta Mercantil, Exame, Senhor e Isto É e atualmente é diretora-presidente da Aretê Editora e Comunicação Eireli.

Na imagem, Gildo Macedo Lacerda / Reprodução

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