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O cio da cadela

O cio da cadela

O alerta de Brecht é um lembrete de que o fascismo nunca está completamente derrotado. É como uma doença que pode ressurgir a qualquer momento, se as condições lhe forem propícias. A ascensão atual da extrema-direita leva a crer que este é mais uma vez um momento ameaçador.

POR CELSO JAPIASSU

O fascismo volta a ser uma ameaça real à democracia na Europa. Repete-se a trágica história das primeiras décadas do século 20. E não se repete como farsa. A ascensão dos partidos neofascistas no quadro eleitoral de vários países é inegável e assim comprovam os casos da Hungria, da Polônia, Suécia, França, Itália, Alemanha, Áustria, Hungria, Portugal e Holanda. A Suécia é o último país a confirmar a tendência crescente da direita radical na Europa, com o partido anti-imigração Democratas Suecos chegando em terceiro lugar nas eleições legislativas.

Nas eleições passadas, os movimentos conservadores ou abertamente nazifascistas obtiveram êxito também em Portugal, que se encontrava até então longe dessa ameaça. O país assistira em 2019 à estreia de um partido de extrema-direita chamado “Chega” que, com 1,3% dos votos, conseguiu eleger um deputado. Nas últimas eleições, neste 2024, com 18,7% dos votos, elegeu 50 deputados à Assembleia da República, consolidando-se como a terceira força eleitoral do país. Pela primeira vez, o Parlamento português tem entre seus membros uma representação populista de Direita, o que não se via desde os tempos de Salazar.

Todos esses movimentos extremistas na Europa ou em qualquer parte do mundo exploram as frustrações da população e disseminam o ódio. Ódio aos estrangeiros, aos imigrantes, aos ciganos, aos negros, aos árabes e aos comunistas. Junte-se a isto o antissemitismo, o autoritarismo, a misoginia, a homofobia, a eurofobia e o total desprezo pela democracia. E está pronta a receita do atual nazifascismo europeu. Ultimamente um novo inimigo está a ser apontado como alvo da Direita. São os antifas. Os movimentos antifascistas que se movimentam para deter essa ameaça cada vez mais real. Os antifas têm reagido às ameaças e são mais constantes as manifestações de rua.

Nas recentes comemorações da Revolução dos Cravos, uma multidão nunca vista desceu no 25 de abril a Avenida da Liberdade, em Lisboa. Um evento que pelo seu tamanho foi interpretado como uma manifestação contra o fascismo que ameaça Portugal cinquenta anos depois de o país ter se livrado do salazarismo.

A ascensão da extrema-direita na Europa nos últimos anos é um fenômeno complexo, com raízes em questões sociais, econômicas e políticas. Entender esse movimento requer uma breve análise dos fatores que o impulsionam, das características dos seus principais partidos e líderes, e das consequências que ele representa para o futuro da democracia e dos direitos humanos no continente.

As causas

A crise financeira de 2008 e a austeridade fiscal que a seguiu geraram grande insatisfação popular, especialmente entre os setores mais vulneráveis da população. Esse sentimento de abandono e insegurança foi explorado pelos partidos de extrema-direita, que prometem soluções simples e imediatas para problemas complexos.

O aumento da imigração, especialmente de países de maioria muçulmana, gerou receios em alguns segmentos da população europeia, que se sentem ameaçados pelos valores tradicionais de uma cultura diferente. Essa xenofobia e o discurso islamofóbico são frequentemente utilizados pela extrema-direita para mobilizar seus apoiadores.

 A globalização e a integração europeia também contribuíram para o sentimento de perda de identidade e autonomia nacional entre alguns setores da população. A extrema-direita capitaliza esse sentimento ao defender o protecionismo econômico, um forte nacionalismo e a oposição à imigração.

 A incapacidade dos partidos tradicionais de responder às reivindicações da população, especialmente em relação às questões econômicas, sociais e migratórias, criou um vácuo político que foi preenchido pela extrema-direita.

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Os partidos de extrema-direita se apresentam como alternativas radicais ao sistema político vigente, explorando o sentimento anti-establishment e prometendo “limpar” a política da corrupção e da ineficiência.

Intolerância

A defesa de um nacionalismo exacerbado e da homogeneidade cultural é um dos pilares da ideologia da extrema-direita. Essa visão frequentemente se traduz em xenofobia, racismo e islamofobia.

Os partidos neofascistas geralmente defendem um governo forte e centralizado, com pouca ou nenhuma tolerância para dissidências. Exibem posturas autoritárias e antidemocráticas. O discurso dos seus líderes é frequentemente populista, explorando emoções como medo, raiva e ressentimento para mobilizar apoiadores. Apresentam-se como os únicos capazes de defender os “verdadeiros interesses do povo”.

A oposição à imigração, especialmente de muçulmanos, é um dos principais temas da agenda da extrema-direita. Baseia-se em estereótipos e preconceitos que alimentam o discurso islamofóbico.

Os partidos neofascistas defendem políticas protecionistas, como o fechamento de fronteiras e a imposição de tarifas sobre produtos importados. Afirmam proteger as indústrias nacionais e os empregos.

O ódio

O discurso de ódio e a retórica xenofóbica contribuem para o aumento da discriminação e da violência contra minorias, como imigrantes, muçulmanos, judeus e LGBTQIA+.

O autoritarismo ameaça valores da democracia como a liberdade de expressão, a liberdade de associação e o Estado de Direito.

 O discurso divisionista e excludente contribui para a erosão da coesão social e para o aumento das tensões sociais. Provoca a instabilidade política, dificulta o diálogo e a cooperação entre diferentes partidos e setores da sociedade.

O cio da cadela

A frase “a cadela do fascismo está sempre no cio” é de Bertolt Brecht no epílogo da sua peça A resistível ascensão de Arturo Ui, de 1941.

A metáfora da cadela no cio representa a constante ameaça do fascismo, sempre pronto a explorar as fraquezas da sociedade e se aproveitar de momentos de crise e instabilidade.

A peça é uma sátira à ascensão de Adolf Hitler ao poder e um alerta contra os perigos do fascismo. Fala da importância da resistência contra a opressão. Foi escrita durante a Segunda Guerra Mundial, quando o fascismo representava grave ameaça à Europa e ao mundo. Brecht era um refugiado alemão que fugiu do regime nazista. Foi um crítico engajado do nazifascismo e sua peça era um alerta quanto aos perigos que a extrema-direita representava.

A imagem da cadela no cio evoca a ideia de algo selvagem, incontrolável e perigoso. A cadela está sempre “no cio”, ou seja, em busca de acasalamento, o que simboliza a insaciável fome do fascismo por poder e dominação.

O alerta de Brecht é um lembrete de que o fascismo nunca está completamente derrotado. É como uma doença que pode ressurgir a qualquer momento, se as condições lhe forem propícias. A ascensão atual da extrema-direita leva a crer que este é mais uma vez um momento ameaçador e que é preciso estar pronto para combatê-la.


Foto de capa: Túmulo de Salazar coberto por obra do artista plástico português Bordalo II na semana do aniversário da Revolução dos Cravos, em Portugal. Foto: Instagram do artista/ Reprodução

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