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Revisionismo do marxismo

Revisionismo do marxismo

Eduard Bernstein, um teórico socialista alemão, é conhecido por desenvolver uma forma de revisionismo marxista no fim do século XIX e início do século XX. Ele criticou e revisou algumas das teorias fundamentais de Karl Marx com base no argumento de as condições sociais e econômicas terem mudado e o socialismo idealizado precisava adaptar-se a essas novas realidades.

Por isso, é necessário inicialmente analisar o contexto do revisionismo de Bernstein com as mudanças econômicas e sociais ocorridas no ½ século após o “Manifesto Comunista” de Marx e Engels. Bernstein observou, contrariamente às previsões marxistas sobre a intensificação das crises econômicas, as economias capitalistas estavam se estabilizando e crescendo.

Houve melhorias nas condições de vida e de trabalho dos trabalhadores, em parte devido às reformas conquistadas pelos sindicatos e pelos partidos social-democratas. Deduziu daí a democratização gradual das sociedades europeias, com a ampliação do sufrágio e a introdução de reformas sociais, sugerir as mudanças sistêmicas poderem ser alcançadas de forma pacífica e gradual.

Os partidos social-democratas, especialmente na Alemanha, começaram a obter sucesso eleitoral e a ganhar assentos no parlamento. Percebeu a possibilidade de influenciar a política dentro do sistema democrático existente.

As experiências políticas concretas demonstraram: com a participação militante e a consciência política dos trabalhadores, seus líderes poderiam até conquistar maioria parlamentar e/ou o Poder Executivo. Esses representantes seriam uma “vanguarda”.

Bernstein, na virada para o século XX, argumentou: o capitalismo não estava se dirigindo inevitavelmente para uma crise catastrófica e um colapso, como Marx havia previsto. Em vez disso, ele via o capitalismo mostrando uma capacidade de adaptação social.

Logicamente, surgiu a distinção entre re-evolução sistêmica e revolução armada. Bernstein defendia o socialismo ser alcançado através de reformas graduais e pacíficas, em vez de uma revolução súbita e violenta. As instituições democráticas poderiam ser usadas para implementar mudanças sociais progressivas.

Enfatizou a importância das reformas políticas e sociais, como a legislação trabalhista, a seguridade social e a expansão dos direitos democráticos. Todas seriam meios de melhorar as condições de vida dos trabalhadores e avançar para o socialismo.

Suas reflexões conduziriam à revisão da Teoria do Valor a partir do argumento da superexploração. Bernstein questionou a ideia de o valor das mercadorias ser determinado exclusivamente pelo trabalho. Outros fatores de produção, como a utilidade de cada bem e serviço, ao influenciar a demanda, também desempenhariam um papel chave na determinação dos preços.

Embora reconhecesse a exploração dos trabalhadores, Bernstein acreditava as reformas sociais e econômicas poderem mitigar a exploração dentro do sistema capitalista.

Em função desse revisionismo, sugeriu a luta de classes não ser, necessariamente, uma luta de extermínio dos capitalistas pelos trabalhadores. Ele acreditava na possibilidade de colaboração entre as classes para alcançar reformas de modo a beneficiarem toda a sociedade.

Essas reflexões críticas provocaram as reações humanas mais comuns por parte dos marxistas sectários. Usaram maus argumentos no debate público.

Primeiro, apelaram para a falácia genética, isto é, o apego emocional, seja negativo, seja positivo, à origem do emissor de uma ideia. Um bom argumento foi desvalorizado não por seu mérito, mas somente por causa da origem social ou partidária da pessoa capaz de a defender racionalmente.

Daí fizeram o apelo à hipocrisia (ou tu quoque: você também). Tentaram rebater uma acusação com outra acusação, desviando a atenção da correção da acusação inicial. Buscaram apontar uma suposta contradição entre o argumento da pessoa e suas ações ou afirmações anteriores, não aceitando ela rever seus conceitos.

Apelaram também à culpa por associação, ou seja, desacreditar uma ideia ao associá-la a algum indivíduo ou grupo malvisto em suas redes de relacionamentos sociais.

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Chegaram até adotar o ataque ad hominem (ao homem): desqualificação do interlocutor por um juízo negativo de suas intenções. Representa atacar a pessoa, em vez da opinião dela, com a intenção de desviar a discussão e desacreditar a proposta desse oponente intelectual.

Os marxistas ortodoxos usaram (e abusaram) do argumento da incredulidade pessoal quanto aos “reformistas”. Na verdade, a incapacidade pessoal de entender ou imaginar algo leva a pessoa a acreditar aquilo ser falso ou impossível.

Rosa Luxemburgo foi uma das principais críticas do revisionismo de Bernstein. Apelou para o jargão marxista, indecifrável para a maioria dos populares, ao argumentar “ele subestima a natureza contraditória e instável do capitalismo” e “compromete os objetivos revolucionários do socialismo”.

O Partido Social-Democrata Alemão (SPD) ficou dividido entre aqueles apoiadores das ideias revisionistas de Bernstein e os fiéis às doutrinas marxistas ortodoxas.

O legado desse revisionismo foi ser um guia para a prática do movimento social-democrata europeu. As ideias de Bernstein tiveram uma influência duradoura, especialmente na Europa, onde muitos partidos adotaram uma abordagem reformista em vez de uma pressuposta revolucionária, provocadora de conflito armado violento.

O revisionismo de Bernstein ajudou a moldar a ideologia do socialismo democrático. Busca combinar os princípios do socialismo com a democracia parlamentar (ou congressual) e as reformas graduais.

Representou uma reavaliação significativa das teorias marxistas à luz das mudanças sociais e econômicas desde o fim do século XIX. Defendia uma transição pacífica e gradual para o socialismo, utilizando as instituições democráticas para implementar reformas progressivas.

Embora tenha enfrentado críticas acirradas dos marxistas ortodoxos, as suas ideias tiveram um impacto profundo no desenvolvimento do socialismo democrático. Levou à revisão da estratégia política de muitos partidos social-democratas ao redor do mundo.

Abandonado o marxismo, a realidade passa a ser vista pelos revisionistas como permanente “movimento social”: a ampliação gradual de conquistas de direitos (civis, políticos, sociais, econômicos e de minoria) da cidadania, isto é, para todos os cidadãos, independentemente de classes sociais ou castas profissionais.

Em decorrência, esses revisionistas foram taxados de renegados. Seus “camaradas” logo cuidaram de expulsá-los do Partidão. Entretanto, a revisão do marxismo era fato: depois de “inventadas as ideias” não é possível mais as “desinventar”.

O revisionismo aparece em todos os lugares, de tempos em tempos, de modo mais ou menos independente por distintos seres pensantes autônomos. Qual é o conteúdo ou o núcleo do revisionismo teórico? Quais são os aspectos do marxismo revistos?

A produção de mais-valia constitui para marxistas a explicação essencial da luta de classes. Esta, mais cedo ou mais tarde, levaria à derrubada “necessária” do modo de produção capitalista. É espécie de determinismo histórico.

Os revisionistas, então, afastam a crença na revolução – um golpe de Estado – para a evolução democrática de um sistema complexo como é o capitalista. Ele tem múltiplos componentes interagindo permanentemente entre si, via mecanismos de mercado, instituições, normas sociais, leis, regras formais ou informais etc.

Esta emergência o configura de distintas maneiras ao longo do tempo e lugares particulares. Por exemplo, há variedades de capitalismo, entre outros, o do livre-mercado, o do Estado e o da mistura em Estado de bem-estar ou de mal-estar social. Isto sem falar em particularidades étnico-nacionais.

Na imagem, capa de livro do alemão Eduard Bernstein na edição em inglês / Reprodução

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