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Fiscal neoliberal

Fiscal neoliberal

Lula peita especuladores e a mídia a serviço dos financistas da Faria Lima

Por Carmen Munari

(Texto atualizado em 03/07/2024)

É só abrir um site de notícias, um email enviado por um veículo de comunicação ou mesmo um portal mais à esquerda que republica todo tipo de notícias: o que surge é o “problema do fiscal”. Ajuste fiscal, equilíbrio entre arrecadação de impostos e gastos, corte no orçamento, alteração na obrigatoriedade de investimentos em saúde e educação – tudo, na linguagem dos especuladores financeiros se resume ao “fiscal”.

Assim, “o fiscal” passou a frequentar diariamente as manchetes da mídia aliada da Faria Lima nas últimas semanas. Mas nosso escudo, o presidente Lula, não deixa barato, a cada crítica a ele e à sua administração, dá-lhe resposta, dá-lhe troco. A situação toda coincidiu com uma reviravolta na comunicação palaciana. Além dos discursos, que permanecem, Lula agora fala dia sim dia também, seja a uma rádio ou a um site de notícias –não só aos amigos do Nordeste, à CBN e ao UOL também.

A MÍDIA E O RABO PRESO

A desvalorização do real em relação ao dólar atingiu em junho, mês mais agudo até agora, 6,47% e se mantém nas manchetes da mídia conservadora. Os especuladores culpam Lula, mas Lula não se avexa, mantém o mercado sob fogo cruzado. Ex-presidentes e ex-integrantes do Banco Central são as fontes preferidas da mídia, como Gustavo Loyola apresentado assim: “Esteve no cargo antes e depois do Plano Real” –sua credencial como testemunha de acusação. Loyola disse (30/06) que o problema fiscal no Brasil é o “calcanhar de Aquiles” da estabilidade monetária e que o alto déficit primário e a ausência de ajustes nas contas públicas “ameaçam uma crise econômica” –que crise, senhor?

Os entrevistados aproveitam-se da sinceridade de Lula para justificar a mexida no mercado: “A taxa de juros de 10,50% [ao ano] é irreal para uma inflação de 4%. Isso vai poder melhorar quando eu puder indicar o presidente [do Banco Central]” (28/06).

Interpretada como promessa de “interferência” no BC quando Roberto Campos Neto deixar o posto bolsonariano em dezembro, logo veio a reação. E dá-lhe nova especulação com o câmbio nas manchetes. Desta vez, escalaram Alexandre Schwartsman, ex-diretor do Banco Central e consultor da A.C. Pastore & Associados. “Esse movimento (do câmbio) tem nome e sobrenome: Luiz Inácio Lula da Silva. Foi ele começar a falar e o dólar começou a subir”, disse ao Estadão, e ainda completou que não houve nenhum fator externo com força o suficiente para justificar o movimento. Para Schwartsman, a chance de o governo concretizar um ajuste pelo lado do gasto neste ou nos próximos anos é “zero”, lamentou.

“Lula sugere interferência no BC, dólar sobe e a culpa não é dos cretinos”, diz a jornalista Raquel Landim. “Maus bofes de Lula chegam aos comentaristas ‘cretinos’ da mídia”, aponta Josias de Souza, ambos no UOL.

Motivo: Lula chamou de cretinos os analistas que fazem a relação entre o que ele diz e a reação do mercado financeiro, mas Landim, garante que os comentaristas e economistas estão corretos e devolveu ao presidente: “Não adianta xingar o mensageiro” (nem o linguísta  Umberto Eco pensaria nessa relação).

Outros lides da correlação mercado /mídia são diários, como este: “Na última quarta-feira (26/6), a moeda chegou a R$ 5,518, quando Lula afirmou, em entrevista ao UOL, que era preciso saber se realmente era necessário um corte de despesas ou um aumento de receitas”. Lula rebate: “Vejam o que aconteceu ontem (27/6). Quando eu terminei a entrevista [ao UOL], a manchete de alguns comentaristas era que o dólar subiu pela entrevista do Lula. E os cretinos não perceberam que o dólar tinha subido 15 minutos antes de eu dar entrevista. Quinze minutos antes!”, afirmou.

NÚMEROS PARA CONVENCER OLEITOR

Incansável, um jornal publicou até cronologia ligando falas de Lula à alta do dólar, com aspas de 2022 até hoje!

Acompanha aquela declaração de Alexandre Schwartsman o comentário do Estadão: “Com as dúvidas sobre a situação fiscal doméstica renovadas e catalisadas pelo temor de que o contingenciamento nos gastos no próximo relatório bimestral seja apenas modesto, a cotação da moeda americana à vista foi de quase R$ 5,60, com pressão também nos juros futuros e, em menor grau, na Bolsa”. Pronto! Está tudo explicado.

E em seguida a numerologia para convencer o leitor: “Ao fim do dia (sexta-feira, 28/06), o dólar à vista estava cotado a R$ 5,5883, alta diária de 1,47% e semestral de 15,14%, o maior salto neste ano entre os emergentes relevantes e também a mais alta variação ante o real desde 2020. Na semana, a moeda subiu 2,71%, e em junho avançou 6,43%. No acumulado do ano, a alta foi de 15,14%, o que corresponde ao avanço mais significativo em relação à moeda brasileira desde os 35,51% registrados no primeiro semestre de 2020.” (ufa!)

Rolf Kuntz (28/06) é exemplo daqueles que não sabe se elogia ou critica: “Lula poderá desarranjar uma economia razoavelmente equilibrada se insistir na gastança”. Mas “com desemprego em queda, inflação no espaço de tolerância, consumo em alta e contas externas em ordem, as finanças públicas são a área principal de incerteza econômica no país”. O alerta, diz o comentarista do Estadão, vem sendo acionado, seguidamente, pelas falas de Lula em defesa de uma política orçamentária frouxa. Para Kuntz, o problema, segundo o presidente, é saber “se precisa efetivamente cortar ou se a gente precisa aumentar a arrecadação”.

Veja Também:  Presidente Lula, não morda essa isca, mesmo que ela se multiplique. Ouça o Podcast.

Mailson da Nóbrega, ex-ministro e dono de consultoria financeira, vem se aproveitando da situação para bater no combate à desigualdade: “Nós nos tornamos um país cuja economia é vítima do baixo crescimento e já nos acostumamos com isso. Há duas razões para esse desempenho medíocre: queda da produtividade e uma situação fiscal muito preocupante. Diria insustentável”, afirmou, acrescentando que esse processo começou com a Constituição de 1988, “a matriz do desastre fiscal no Brasil porque os políticos a usam como justificativa para o combate à desigualdade com gastos públicos”. (IstoÉ Dinheiro, 04/06).

20 ANOS DO REAL

A efeméride dos 20 anos do Plano Real no mês de junho abriu uma nova porta de fontes jornalísticas para bater no “fiscal do Lula”. Seus criadores reapareceram na cena política e econômica e até posaram para foto com Fernando Henrique Cardoso, 93.

“Brasil precisa adotar revisão de gastos para concluir Plano Real”, recomendação do ex-ministro da Fazenda Pedro Malan, 81, publicada com chamada de capa pela Folha de S.Paulo (01/07). A entrevista exclusiva teve 18 citações ao termo “fiscal”, mas não mencionou Lula. Na mesma edição, a principal manchete dizia: “Mínimo custará mais de R$ 100 bilhões à Previdência”, mais uma campanha do jornal, mas esta é outra história.

Para Miriam Leitão, tudo não passa de um “ruído” entre Lula e o presidente do Banco Central. Ela diz que o embate não é grave em função das reservas internacionais, que são nossa defesa nestas situações. “O presidente Lula está fazendo a estratégia totalmente errada. Ele alimenta esses ruídos que estão aumentando a tensão na economia, sem motivo para o aumento desta tensão” (TV Globo, 02/07)

E no site do Globo (02/07), a suposta “informação privilegiada”: “Para conter a escalada do dólar, o presidente Lula precisará recuar em sua cruzada contra o Banco Central e contra o atual chefe da autoridade monetária, Roberto Campos Neto. Esse é o diagnóstico presente hoje na cúpula da equipe econômica. Integrantes do time econômico até admitem, sob reserva, haver certa ‘implicância’ do mercado com o governo, mas enxergam na atuação recente do petista o combustível ideal para os especuladores”.

Nesta peleja toda, o ministro Fernando Haddad se mantém praticamente calado, mas é tido pela mídia como o interlocutor que vai conseguir calar Lula em reunião agendada para quarta-feira (03/07). Na terça, repercutiu uma recomendação sutil do ministro da Fazenda: o movimento de disparada do dólar pode ser contido se o governo federal “acertar a comunicação” para tranquilizar o mercado (Infomoney, noticiário da corretora XP).

DÁ-LHE LULA

Além da “interferência no BC autônomo”, a metralhadora verbal de Lula não para. Algumas tiradas:

“Quem estiver apostando na alta do dólar, na especulação, vai perder dinheiro porque nós vamos tomar conta disso”, afirmou, ao repudiar a correlação entre a alta do dólar e sua fala. E mais, diz que gostaria de fazer ajuste “em cima da rentabilidade dos banqueiros”.  E que  não tem que “prestar contas para banqueiros”, mas sim à população pobre do Brasil.

Ou: “Estão dizendo: ‘É importante ter uma preocupação de fazer um ajuste fiscal, o salário mínimo está ficando muito alto’. Que salário mínimo alto? É o mínimo! Não tem nada de mínimo alto”. (28/06)

Em meio a tanta especulação, sempre aparece um pouco de sensatez, mesmo vindo de especuladores: “A alta do dólar pela quinta sessão seguida também se deve à pressão dos rendimentos dos títulos do Tesouro americano, o que justifica a valorização global da moeda americana, que registrava alta no exterior desde o início do dia… O mercado (brasileiro) está tendo dificuldade de encontrar um nível para o dólar que seja factível com as expectativas”, segundo o gerente de tesouraria do Banco Daycoval, Otávio Oliveira da Silva. “E cautela em um ambiente de incerteza local muitas vezes se traduz em comprar dólar”. No ano, a alta da moeda brasileira é de 16,49%. (Valor Econômico, 02/07).

Enquanto finalizo este texto (em 02/07 à noite), o UOL traz na manchete principal: “Dólar tem nova alta e vai a R$ 5,66 em dia de mais críticas de Lula ao BC”. Não tem fim…

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